Alagoas etc e tal

Edna Lopes é educadora, sindicalista, coralista, poeta, mulher apaixonada, mãe e militante pela vida. Alguém precisa ser mais que isso?

Na Emancipação de Alagoas, a lição dos que não se rendem

Na Emancipação de Alagoas, a lição dos que não se rendem



“Faces sob o sol, os olhos na cruz
os heróis do bem prosseguem na brisa da manhã…” *


     No estado de Alagoas as belezas naturais são um deslumbre, e mesmo que minha opinião possa ser avaliada como claramente tendenciosa e bairrista, quem nos visita não há como não dizer da beleza de nossas praias, de nossas lagoas, de nossa culinária, da singeleza do nosso artesanato, dos folguedos e da alegria do nosso povo, patrimônio imaterial mais valioso.
     Porém, virando a página do encanto, o estado das Alagoas é um estado de ausências. Um verso de um dos nossos folguedos apregoa: “… quem nasce nas Alagoas, não passa necessidade…” quem dera fosse verdade!
     Sucessivos governos se ausentaram da responsabilidade para com a construção das políticas públicas de atendimento a população. Saúde,  Educação, Assistência Social, moradia, lazer,  cultura, convertem-se em nota de rodapé nos programas de governo.
     Sucessivos governos vislumbrando o potencial de massa de manobra que é um povo sem educação, sem autoestima, espoliado no seu direito de morar dignamente, trabalhar, ter assistência médica quando precise, reconhecer-se produtor de cultura e conhecimento, abandonaram este mesmo povo à própria sorte. Ausentes dos direitos, mantêm-se cidadãos e cidadãs de segunda classe.
      “Manda quem pode. Obedece quem tem juízo”, era – e ainda é – a máxima que corre à boca pequena nos currais eleitorais do mar ao sertão e mais ausências são contabilizadas. A frase, capciosa e perversa, dá o tom da ameaça necessária para se manter um povo subserviente, trocando voto por um favor que na maioria dos casos, é direito garantido em lei, mas que serve como moeda de troca nas mãos inescrupulosas de quem vive de achaques e roubalheiras, de quem manipula até a boa fé alheia.
     No nosso inventário de ausências, estudantes se ausentam da sala de aula pela ausência crônica de professores, pela ausência de condição nas escolas sucateadas, pela ausência de uma gestão governamental que priorize a resolução desses problemas, que garanta direitos adquiridos.
     Trabalhadores se ausentam das escolas acossados pela falta de condições mínimas de trabalho, de segurança, pelas doenças da profissão, pela desvalorização da profissão, pela desilusão, embora reconheça também que alguns são descomprometidos, contabilizam a ausência do respeito ao contribuinte que paga nossos salários, aos seres que estão em nossas salas de aula.
     A Educação Escolar, meu campo de atuação, é bem “o centro das nossas desatenções” e o centro geral das ausências é a população desrespeitada no direito de ter educação como um bem inalienável, o direito que assegura a lei máxima do nosso país.
     Os trabalhadores da Educação do Estado de Alagoas(dos municipios e do estado) entram em greve quase todos os anos. Embora os governos saibam do débito com a população que anualmente amarga índices vergonhosos de IDH**, de analfabetismo, de morte entre jovens, de violência contra  a mulher e de modo geral, embora saibam do débito com a categoria e com a população,  por não cumprir acordos firmados, dificultam o diálogo mantendo uma postura intransigente e, negligentes, se ausentam, mais uma vez, das responsabilidades.
     Aos trabalhadores da Educação em Alagoas resta a luta, porque nada nos chegou de bandeja, exemplo, a conquista da isonomia com o nível superior do estado, há alguns anos atrás. Sabemos todos que greve é um remédio amargo demais, pois só quem nunca viveu o transtorno de reorganizar ano escolar fora do ano civil diz que “professor não quer trabalhar”. Só quem vive a realidade de tantas ausências em um espaço que deveria ser de fartura e vida, que é a escola, sabe o quanto nos custa cada uma dessas ausências.
     Hoje, 16 de setembro, comemora-se a Emancipação Política de Alagoas.São 196 anos de história. E que não se ausente de nós a esperança.


  “Ah! Como é difícil tornar-se herói.
Só quem tentou sabe como dói
vencer Satã só com orações…”

*fragmentos de Agnos Dei- João Bosco & Aldir Blanc
**IDH- Índice de Desenvolvimento Humano

Somos quem podemos ser?

por Edna Lopes

Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão
Um dia me disseram
Que os ventos às vezes erram a direção
(…)
Nós
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter
Humberto Gessinger / Paulinho Galvão

Sempre que ouço ou relembro essa música penso mesmo se Somos quem podemos ser… A letra afirma, eu pergunto: Somos quem podemos ser? Queremos ser o que somos? Somos quem queremos ser? Pode parecer confuso, mas pensei nisso quando vi um rapaz, na verdade um garoto ainda, “quebrando todas” como se diz de quem rebola muito enquanto dança, na frente de um palco, no lugar que chamam de gargarejo.
Estava com um grupo de amigos num show e me chamou a atenção, não o garotão que rebolava sem parar, mas as duas mulheres que o puxavam pela mão e queriam tirá-lo dali a qualquer custo. Como conhecia uma delas me aproximei, querendo saber qual o motivo de querer arrastá-lo dali, pois era óbvio que ele não queria ir.Visivelmente envergonhada, a minha conhecida relatou que era seu sobrinho e alegou que o garoto estava “se exibindo demais”.
Rebati imediatamente, dizendo não haver nada demais com a dança dele, que não estava incomodando ninguém e que, por favor, o deixassem dançar sossegado, que ele tinha o direito de ser feliz, de ser quem era. O garoto me olhou como quem olha no altar uma santa de sua devoção…Me abraçou efusivo e me disse, empolgado “Maravilhosa”! Segurou minhas mãos e, como uma criança, dançou comigo, rodopiando, rindo de satisfação.
Meu coração doeu olhando aquela alegria tão cheia de desamparo. Óbvio que seu jeito afetado de ser envergonhava sua tia, que me deixou com ele e saiu.Certamente que ele sofria, que todos sofriam.Lutar diuturnamente para ser o que é deve ser dureza, pensei e me vi solidariamente acolhendo aquele garoto que poderia ser meu irmão, meu sobrinho, meu filho, um dos meus alunos.
Voltei para perto de meu grupo de amigos e, ao longo da festa, vez ou outra o rapazinho procurava meu olhar e riamos, um para o outro. Quem sabe, pela primeira vez na vida sentia o gosto, o sentimento bom que é ser aceito, ser compreendido na sua inteireza e diversidade.
Enquanto isso eu me arrependia da intromissão, procurava também com o olhar a minha conhecida para pedir desculpas mas me dizia que sempre vou querer ser o que posso e o que quero ser e que lutaria sempre para que todos e todas, em qualquer tempo ou lugar também tivessem esse querer respeitado, esse direito humano de ser e existir segundo sua natureza.

Ouçam a bela voz de Humberto Gessinger cantando Somos quem podemos ser

*imagem da web

A Lição da Dor

A Lição da  Dor

Por Edna Lopes

 

“Brasileiro só fecha a casa depois de roubado.” Ouvi esse ditado popular a minha vida inteira justificando nossa falta de cuidado, nossa desatenção com a segurança. Dia desses o país inteiro deu risadas quando um ladrão, num rasgo de consciência, levou parte do dinheiro da casa e deixou um bilhete recomendando aos donos que reforçassem as trancas.
Foi preciso uma tragédia nas proporções da tragédia de Santa Maria para que as autoridades do executivo, do legislativo e as responsáveis pela autorização e fiscalização de espaços de utilização pública como boates, casas de show e teatros fossem vistoriados e lacrados, quando confirmadas as irregularidades.
“Nunca se esquecem as lições aprendidas na dor” diz um provérbio africano, mas não queremos esse aprendizado, portanto a mesma preocupação e cuidado deve ter essas e outras autoridades para o risco que correm nossas crianças, jovens e adultos, estudantes e profissionais da educação nos espaços das nossas escolas, não só com relação ao perigo de incêndio, mas em todas as questões que envolvam a perspectiva de uma escola segura.
Como presidente do Conselho Municipal de Educação de Maceió, da diretoria do Sindicato dos Trabalhadores/as da Educação (SINTEAL) e da coordenação em Alagoas da União dos Conselhos Municipais de Educação, conheço as várias realidades do estado e tenho consciência da nossa responsabilidade ao garantir os Atos Autorizativos para as escolas, assim como também tenho dos limites que a nossa posição de conselheiras e conselheiros tem para cumprir com essa tarefa.
Não só na minha gestão, mas em todas as que me antecederam, nossas regulamentações, pautas e relatórios aos gestores pontuaram a questão da regularização das escolas. Itens fundamentais para a conclusão dos processos concedendo Atos Autorizativos são os Laudos do Corpo de Bombeiros, da Vigilância Sanitária e o Habite-se, todos eles, no caso das escolas públicas, de responsabilidade do órgão Gestor do Sistema, ou seja, das secretarias de educação.
A mesma situação é vivenciada pelo Conselho Estadual, responsável não só por sua rede pública de escolas, mas também pela rede dos municípios que não são sistemas. As escolas cumprem sua parte informando todas as questões solicitadas, encaminhando o Projeto Político-Pedagógico e o Regimento, mas os processos das escolas encalham, justamente porque as gestões não fazem sua parte que é agilizar os laudos e documentos dos órgãos citados.
Não seremos iresponsáveis concedendo Atos Autorizativos para escolas sem a vistoria desses órgãos, como também não somos omissos para não alertar sobre essa situação.
Sermos acusados de inoperantes porque os Gestores têm outras prioridades tem sido a tônica, mas cabe a nós relembrar as autoridades que não precisamos da lição da dor de nenhuma tragédia em nossas escolas para que elas cumpram com seus deveres.

Publicado também no

http://www.recantodasletras.com.br/artigos/4123770

Eleições – Os candidatos, os eleitos, seus nomes, seus projetos.

Eleições – Os candidatos, os eleitos, seus nomes, seus projetos.

Por Edna Lopes

 

                                                                       Pesquisada no Google

 

 

Bem no início do Guia Eleitoral assumi que o acompanhava mesmo correndo o risco de ser excluída da lista de alguns (as) que finalmente concluiriam que eu não era alguém de juízo perfeito.
Eu sei que muitas pessoas reafirmarão que não gostam de política e que não votou nem vota porque “o que é um voto?” mas certamente lembrarão que essa “política” que rejeitam decide os rumos da educação, do emprego e da renda, da saúde, do convívio urbano ou rural, do trânsito, da cultura, da segurança, enfim, decide os rumos da nossa vida cidadã.
Pois bem.Enquanto durou o Guia e por força do trabalho, pude estar em três regiões do país, em algumas capitais e vi também a Propaganda Eleitoral desses lugares e o sentimento que fica é de que o processo eleitoral é uma grande piada, pois assim foi tratado por muitos partidos
Muitos candidatos/as, em TODOS os lugares que fui, fizeram do Guia Eleitoral palanque de exibicionismo, palco de excentricidades e digo apenas isso para não me alongar e continuar sendo educada e elegante. Candidatos fakes, debochando do processo, Zé disso, Maria daquilo outro, Fulana/o de beltrano ou sicrano, sem história nem projeto, ocupando espaço, gastando nosso dinheiro e nossa paciência, nos tratando como imbecis, consumidores de suas sandices.
Sabe Deus o quanto sou bem humorada, mas tudo tem um limite. Não vejo maturidade política ainda para o voto facultativo e também não defendo o voto nulo por entender que a omissão não ajuda a qualificar esse quadro.
Passada a eleição, marias e zés disso e daquilo outro agora são os nossos representantes, gostem disso ou não. Embora a escória da política tenha reafirmado seu poder em muitos lugares, entre os eleitos, ainda bem, pessoas sérias também chegaram lá e nelas está nossa esperança de, ao menos, honestidade. Contamos também com transparência, lisura e respeito ao voto que não foi comprado mas é crédito de confiança.
A sensação é de que poucos levaram a sério o momento de exercer sua cidadania, de escolher seus representantes no executivo e no parlamento.Em momento algum tomo o voto como obrigação mas como um direito conquistado e tenho muita responsabilidade ao exercê-lo.Minha consciência cidadã me diz que seria bem pior se eu tivesse me omitido.
Quero deixar bem claro que não comungo desse complexo de vira-lata que acha que TUDO aqui não vale nada.Estou cansada, mas permaneço atenta, indignada, jamais desesperançosa ou pessimista.
E vou por aí, reafirmando o que, sabiamente, nos diz Paulo Freire: “Não é, porém, a esperança um cruzar de braços e esperar. Movo-me na esperança enquanto luto e, se luto com esperança, espero.”

Dicas de Leitura: O chão de Graciliano

O chão de Graciliano

Por Edna Lopes

O chão de Graciliano é também o meu chão, não apenas porque nasci nas terras da Fazenda Serra Grande, no município de Quebrangulo, estado das Alagoas, mas porque é o chão dos meus afetos mais caros, da minha raiz brasileira.
O chão de Graciliano se estende para além das fronteiras do chão em que nasceu o Mestre. É o chão da nordestina adversidade, uma terra castigada por um sol inclemente, mas também abençoada com chuvas que fazem esse mesmo chão que racha, virar um tapete de flores.
O chão de Graciliano é um livro especial e deve ser lido com os cinco sentidos e o li assim. Li com os dedos ansiosos pela próxima página, pela próxima fotografia, pelo próximo relato do autor das palavras. Li com a sensação da traquinagem dos banhos escondidos numa cachoeira do Rio Paraíba.
Li com o ouvido da alma atento às lembranças do canto da acauã, do alvorecer entre cacarejos e mugidos, do bater das asas da garça nos açudes, entre o entardecer de silêncio e solidão, na vermelhidão da boca da noite.
Li com os olhos encantados e às vezes tristes, pelas imagens tão cruas, tão reais, tão duras, mas ainda assim esperançosas, como a fé que anima os viventes das Alagoas, Fabianos e Sá Vitórias de vida severina, com seus corações de acolher o mundo.
Li com o coração saudoso do cheiro das primeiras gotas de chuva na terra ressequida, do cheiro do café torrado e moído por meu pai, do cheiro de estrume e leite fresco, do tacho de doce de leite e de queijo, no fogão de lenha.
Li com a mesma saudade do gosto desse doce e desse queijo, do vapor do milho cozido e da caneca de leite fresco na beira do curral, guardados como “comidas da alma”, na memória afetiva das lembranças mais caras e saborosas.
O chão de Graciliano é um livro especial não só por tudo que me fez sentir e lembrar, mas também por ter sido presente do autor dos textos, o jornalista e escritor Audálio Dantas, que juntamente com sua esposa e jornalista Vanira Dantas, amigos queridos, estiveram comigo no dia do meu aniversário, no dia de Santo Antonio, em São Paulo.
Vale à pena ler e se encantar com os detalhes desse Chão.
Serviço:
O livro de arte-reportagem, “O Chão de Graciliano”, editado pela Tempo d’Imagem, mostra, em texto de Audálio Dantas e fotografias de Tiago Santana, presidente do iFoto, a região de nascimento e criação literária de Graciliano Ramos.
O livro, com versão em inglês e espanhol, é o resultado de várias viagens ao sertão de Alagoas e Pernambuco, a partir de 2002, quando foi feito o primeiro ensaio fotográfico para a exposição “O Chão de Graciliano”, em 2003 (Sesc Pompéia, em São Paulo), considerada a mais importante até hoje realizada sobre a vida e a obra do escritor. O evento, com projeto e curadoria de Audálio Dantas, marcou a passagem dos 110 anos de nascimento de Graciliano e os 70 anos da publicação de seu primeiro romance, “Caetés”, e percorreu várias cidades, entre as quais Maceió (AL), Fortaleza (CE) e em Recife (PE), na Fundação Joaquim Nabuco, com palestra de abertura de Ariano Suassuna.
Os autores e o Chão
Os autores do livro têm em comum a origem nordestina. O jornalista Audálio Dantas nasceu na pequena cidade de Tanque d’Arca, Alagoas, a poucos quilômetros de Quebrangulo, terra natal de Graciliano. Seu texto, uma reportagem literária, registra o tempo e o espaço do escritor em sua região, o passado e o presente muitas vezes se confundem, pois em muitos aspectos as condições do homem que nela vive permanecem praticamente as mesmas.
Cearense do Crato, o fotógrafo Tiago Santana, cresceu vendo os romeiros que buscavam milagres em Juazeiro, cidade do Padre Cícero, ali perto.
Como a obra de Graciliano, o ensaio fotográfico de Tiago é centrado na figura do homem, tendo a paisagem como mero pano de fundo. Na apresentação do livro, o jornalista (também nordestino) Joel Silveira afirma: “O chão percorrido pelo fotógrafo é o mesmo sobre o qual Graciliano construiu a sua literatura, mas não é a paisagem, a terra quase sempre dura e seca, que Tiago recolhe em sua câmera; o que ele registra é o homem que nela vive, sobrevive ou dela se retira quando de todo perde a esperança – eterno Fabiano”.
O Chão de Graciliano é um projeto da Audálio Dantas Comunicação e Projetos Culturais e da Editora Tempo d’Imagem, com incentivo da Lei Rouanet (…)
http://www.confoto.art.br/livros/chao.php

VOTO NÃO TEM PREÇO, TEM CONSEQUENCIA!

Por Edna Lopes

 

“A pessoa conscientizada tem uma compreensão diferente da história e de seu papel nela. Recusa acomodar-se, mobiliza-se, organiza-se para mudar o mundo.” (Paulo Freire in:Cartas à Cristina, 1994.)

Carrego algumas bandeiras e quando pesam, olho em volta, pois quem sabe há alguém para dividir seu peso comigo… E como tenho encontrado gente solidária por onde ando!
Viver numa democracia, se é que alguém ainda se dá ao trabalho de pensar no que isso significa, é algo caro e especial e não abro mão do momento de escolher quem vai conduzir os destinos da política na cidade em que habito, trabalho, vivo.
Não é a desonestidade, não é a mentira, não é a roleta russa da política em todos os escalões e poderes que vai me fazer naturalizar estes comportamentos nocivos e achar que “tudo é assim mesmo, “que nada muda”, “ninguém presta”.
Ser uma pessoa conscientizada me faz ser responsável, comigo e com quem comigo caminha, com quem divide o peso das bandeiras que carego.No contraponto, que direito tem de reclamar, de exigir quem escolhe sem critério, e pior, quem se omite?
Não me acomodo, não me omito porque minha conciência cidadã não permite que eu esqueça que VOTO NÃO TEM PREÇO, TEM CONSEQUENCIA!

Somos quem podemos ser?


imagem da web

 

Um dia me disseram
Que as nuvens não eram de algodão
Um dia me disseram
Que os ventos às vezes erram a direção
(…)
Nós
Somos quem podemos ser
Sonhos que podemos ter
Humberto Gessinger / Paulinho Galvão

Sempre que ouço ou relembro essa música penso mesmo se Somos quem podemos ser… A letra afirma, eu pergunto: Somos quem podemos ser? Queremos ser o que somos? Somos quem queremos ser? Pode parecer confuso, mas pensei nisso quando vi um rapaz, na verdade um garoto ainda, “quebrando todas” como se diz de quem rebola muito enquanto dança, na frente de um palco, no lugar que chamam de gargarejo.
Estava com um grupo de amigos num show e me chamou a atenção, não o garotão que rebolava sem parar, mas as duas mulheres que o puxavam pela mão e queriam tirá-lo dali a qualquer custo. Como conhecia uma delas me aproximei, querendo saber qual o motivo de querer arrastá-lo dali, pois era óbvio que ele não queria ir.Visivelmente envergonhada, a minha conhecida relatou que era seu sobrinho e alegou que o garoto estava “se exibindo demais”.
Rebati imediatamente, dizendo não haver nada demais com a dança dele, que não estava incomodando ninguém e que, por favor, o deixassem dançar sossegado, que ele tinha o direito de ser feliz, de ser quem era. O garoto me olhou como quem olha no altar uma santa de sua devoção…Me abraçou efusivo e me disse, empolgado “Maravilhosa”! Segurou minhas mãos e, como uma criança, dançou comigo, rodopiando, rindo de satisfação.
Meu coração doeu olhando aquela alegria tão cheia de desamparo. Óbvio que seu jeito afetado de ser envergonhava sua tia, que me deixou com ele e saiu.Certamente que ele sofria, que todos sofriam.Lutar diuturnamente para ser o que é deve ser dureza, pensei e me vi solidariamente acolhendo aquele garoto que poderia ser meu irmão, meu sobrinho, meu filho, um dos meus alunos.
Voltei para perto de meu grupo de amigos e, ao longo da festa, vez ou outra o rapazinho procurava meu olhar e riamos, um para o outro. Quem sabe, pela primeira vez na vida sentia o gosto, o sentimento bom que é ser aceito, ser compreendido na sua inteireza e diversidade.
Enquanto isso eu me arrependia da intromissão, procurava também com o olhar a minha conhecida para pedir desculpas mas me dizia que sempre vou querer ser o que posso e o que quero ser e que lutaria sempre para que todos e todas, em qualquer tempo ou lugar também tivessem esse querer respeitado, esse direito humano de ser e existir segundo sua natureza.

Ouçam a bela voz de Humberto Gessinger cantando Somos quem podemos ser

Eleições 2012 – O Guia Eleitoral

imagem:paulista40graus.com.br

 

Começou a propaganda eleitoral obrigatória no rádio e na TV e vou confessar uma coisa, mesmo correndo o risco de ser encaminhada para algum serviço psiquiátrico: Eu gosto de ver o Guia Eleitoral!
Certamente que as minhas razões não são de eleitora deslumbrada, mas de pessoa curiosa que vê no desfile de tipos tão humanos e talvez por isso, tão prosaicos, tão excêntricos, tão “se achantes”, tão “espertos”, tão, tão… que não posso deixar escapar a oportunidade de me refestelar com esse “buraco na fechadura” da alma humana.
O que me chama a atenção, de imediato, é a convicção com que falam: todos e todas, sem exceção, em qualquer cargo pleiteado tentam nos convencer que são o último copo d’água no deserto, que são os salvadores da lavoura, da pátria, os verdadeiros- e únicos- heróis da sala da justiça.
Gosto de “análise de discurso” eleitoral, gosto de imaginar as entrelinhas de cada fala. Os que me conhecem sabem bem que não sou adepta das generalizações.O meu destaque aqui é para a fraude, para o tipo que diz abertamente ser o que não é e nem pretende ser.Acredito de verdade que estão sendo honestos ao menos numa coisa:querem mesmo a vaga de vereador ou de prefeito!
Muitos sabem que “a parte que lhe cabe neste latifúndio” é a de puxa-saco, de cabo eleitoral mal pago, ou bem pago, sei lá, de comensal das sobras mas ainda assim jogam-se na aventura de “caçar votos”.
Sei, acredito firmemente, que há ainda gente séria, gente boa, trabalhadora e honesta exercendo cargos públicos de representação nesse país. A estes a minha solidariedade, a eterna vigilância e o peso da responsabilidade em não deixar o barco à deriva. Sei também que vão dizer que acredito em Papai Noel, duendes e fadas …
Quero dizer que aprendo muito como Guia Eleitoral. A lição maior é que se fosse do tipo impressionável, desistiria de votar. A segunda lição é que o Guia tem sido, ao longo de sua existência, a vitrine do bizarro, da falta de ética, do desrespeito a quem leva a sério o seu voto.
Jamais escolhi candidato pelo Guia e imagino que quem se leva a sério também não. A terceira e última lição (por enquanto…) é de que devo me cuidar e temer o que ouvirei nos próximos Guias. Anos atrás tirava Vinícius da sala mas ele teimoso, como a mãe, assistia e dava boas risadas comigo.
Lembro-me de uma frase de rara sabedoria popular: “Política: o bolo é o mesmo mas as moscas se revezam” e lembro Brecht ” Será que teremos que contar com a sorte?”

                                                      imagem:fabiomozart.blogspot.com

Plano Municipal de Educação de Maceió para Download

Está à disposição, para Download, a versão em PDF do 1º PLANO MUNICIPAL de EDUCAÇÃO de MACEIÓ, aprovada e transformada em lei em 01 de fevereiro de 2012, publicado no D. O. M. (Lei nº 6.333), com vigência de 2011 a 2021.Vale ressaltar , que o anexo foi encaminhado à Comissão de Educação da Câmara com sugestões para adequações e ajustes no projeto. Em 2011, essas sugestões constavam no relatório da Comissão, mas NÃO foram acatadas pelos vereadores. No entanto, fazemos questão de registrá-las para conhecimento e as devidas alterações no momento oportuno.

*Edna Lopes*
Presidenta do Conselho Municipal de Educação de Maceió e Coordenadora da UNCME-AL
http://www.sinteal.org.br/arquivo/plano-municipal-de-educacao-de-maceio/

DICAS DE LEITURA: As primeiras leituras da escola e o mundo maravilhoso de Andersen e Grimm

As primeiras leituras da escola e o mundo maravilhoso de Andersen e Grimm

imagem in:projetodepesquisas.blogspot.com

Por Edna Lopes

“ Em kairós sou alma menina
com muito para aprender
e viver.
Eterna adolescente
sonhando de olhos abertos,
suspirando ao ler poemas e
encantada com aventuras de capa e espada.”

Frag. de “Cronos e Kairós: Temporalidades da Alma” Edna Lopes

Sempre me pergunto por que será que, desde sempre, tudo em mim tem um quê de fantasia. Por que, quando me tornei adulta, não larguei as saias da literatura fantástica, dos contos de fadas, dos seres mágicos, dos heróis de capa e espada.
Sempre me pergunto mas sei a resposta, porque sei tudo que li e vivi influenciou e muito o que me tornei e, por isso, assumo esse meu lado romantico sem nenhum pudor.
Assumo também que meu lado criança me salva, cotidianamente, das muitas loucuras do mundo adulto.
Dos tempos de ida à escola primária a partir dos sete anos, descobri o livro didático, suas leituras e seus exercícios. Uma festa ler tudo aquilo mesmo que não entendesse muito bem muita coisa do que estava escrito ali. Embora hoje tenha a convicção de que muitos (ou quase todos), sejam pedagogicamente questionáveis, tenho muito carinho por eles, pois sei o que significaram em minha vida.Tanto que sempre ficavam muitas lições sem responder, ao longo do ano e, nas férias, era a minha diversão, preencher o livro todo.
Descobri também que a biblioteca da escola rural, uma velha estante de mais ou menos um metro e meio de altura por um metro de largura, guardava um tesouro inestimável. Livros, livros, e eu nunca tinha visto tantos!Grandes e ilustrados, de poucas páginas, pequenos, finos, grossos, capas de todas as cores, formatos diversos, texturas inimaginadas.
Quando li A MENINA QUE ROUBAVA LIVROS, chorei na cena em que, na casa do prefeito, ela vê, pela primeira vez, uma biblioteca e, maravilhada, pede para tocar nos livros. Na lembrança, me vi menina diante daquela estante esquisita, de olhos arregalados, cobiçosos, encantada com as possibilidades que aquela visão me proporcionava.
Passado o primeiro impacto, deixei de brincar no recreio para ficar remexendo na estante, folheando-os, devorando os de poucas páginas e sonhando quando poderia ler um daqueles de muitas e muitas páginas. Um dia criei coragem e perguntei a professora se poderia levar algum emprestado e ela respondeu que desde que tivesse cuidado, poderia levar qualquer um. Tempos depois, ao ler Clarice, reencontrei esse sentimento em FELICIDADE CLANDESTINA. Mais que uma menina, era uma mulher tomando ás rédeas da minha vida, fazendo minhas primeiras escolhas.
Àquela altura já havia lido muitas histórias e também havia contado muitas, de memória, a meus irmãos menores, mas queria que eles vissem as ilustrações, que me ouvissem lendo-as, com todos os detalhes. Na época não liguei quem era o autor ou os autores, mas o mundo do Patinho Feio, da Cinderela, da Branca de Neve, do Soldadinho de Chumbo, da Menina dos Fósforos, do Príncipe Sapo e de tantos, tantos outros personagens tão queridos até hoje, invadiu o mundo dos meus irmãos e irmãs e o meu e nunca mais fui a mesma.

Da Série Leituras Inesquecíveis

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