A Melhor Política

Mestra em Educação Brasileira na Linha História e Política, Cientista Social, cidadã, amante e defensora do direito de viver.

Mês da Mulher: Anti-homenagem à Rosinha da Adefal

Estamos ainda nos últimos dias do mês consagrado ao elogio da mulher. Antes do maio maternal, romântico, temos o março de luta, resistência e reconhecimento das contribuições femininas para a melhoria do mundo. É aqui, nesse nicho de reflexões que faço uma anti-homenagem a Rosinha da Adefal, a deputada alagoana que entre três outros descomprometidos sociais (Arthur Lira, Nivaldo Albuquerque e Cícero Almeida) votou a favor da terceirização, destruindo os parcos direitos trabalhistas dos brasileiros.

Mas Rosinha tem comportamento anti-povo revelado em muitas situações, começando com seu apoio ao golpe, que só beneficiou aos mal intencionados da nação. Contudo, vale inserir nessa reflexão, que Rosinha da Adefal tem angariado votos dos mais pobres e excluídos de Alagoas, através da sigla que incorporou, se propondo a representar as pessoas com deficiências do nosso estado.

Quem representa essa parcela ainda tão excluída e vota contra os trabalhadores, está sendo fiel à representação?

Na política de mulheres, sua participação foi acessória. Sem projetos relevantes. Uma mulher feita para cargos sobre o utilitarismo político grassante. Multiplicadora de pequenas oportunidades entre seletos grupos de cabos leitorais e congêneres.

Penso agora nas mulheres alagoanas que contam real a real para o pão de cada dia. Recordo as mães que carecem manter o leite e a massa para o mingau do filho preso a uma cama, eleitoras de Rosinha…Sim, essa deputada não sabe de suas existências para além do período eleitoral. Não está representando nenhuma de nós alagoanas em Brasília.

Diante do quarteto perverso que nos envergonhou essa semana, dentro do qual temos dois herdeiros de pais vinculados à má política, como Arthur Lira e Nivaldo Albuquerque, e um político de histórico reprovável como Cícero Almeida, Rosinha da Adefal é apenas mais um/uma que nada de nós leva ao parlamento, apenas a legitimidade de votar contra os nossos interesses e contribuir para adoecer os lares alagoanos com o aguçar da fome e a evolução da miséria.

Nessa anti-homenagem, nosso lamento.

Sobre a importância de dizer #ForaTemer

A percepção do alcance nefasto das políticas do governo federal ainda não chegou na mente do cidadão comum brasileiro, aquele que de fato vive com até um salário mínimo e atua no cotidiano com mãos tarefeiras, sempre ativas na construção do labor, agora ainda mais dificultado pelos cortes e perdas de direitos.

Quem foi às ruas ontem? Quem conseguiu lotar as avenidas nas capitais do país e fazer ecoar com força o #ForaTemer que expressa resistência e indignação? Foi a classe média com seus desníveis regionais, incluindo aqueles que se mantiveram mornos, até perceberem os riscos reais de perder direito à aposentadoria como induz a reforma da previdência.

Podemos perceber que a marola sugere onda. Não estamos imersos em apatia, mas divididos em ilhas, que por sinal, faz parte do projeto de dominação pela desigualdade de acessos; demonização da participação do cidadão na política; e outras amarrações que costumam passar despercebidas ao olhar comum.

Mas a luta popular não encontra facilidades. O recrudescimento do conservadorismo fundamentalista ergue barreiras extras, afastando a discussão salutar, e gerando palcos para o ódio, intolerância e uma salada de preconceitos, para os piores gostos. Eis nosso Brasil de agora.

Urge sejamos semeadores de bons anúncios, viver a certeza de que os contextos são móveis e quando a poesia escasseia a vida parece insolúvel, mas se trata de momentos. Os temas são muitos e cada lugar pede o cultivo de boas atitudes. Agroecologia, educação libertadora, saúde pública, cultura popular, liberdade de expressão, diversidade sexual, legitimidade das expressões religiosas, etc. abrem um leque para a luta diária.  Sejamos os arautos dessa esperança, dentro de nossas casas e espaços de atuação social.

Importa sobreviver ao caos e viver na iluminação da esperança. Braços dados, não importando a distância física, levemos uns aos outros o consolo de saber que estamos juntos.

Ir às ruas nos inspira continuar na luta, fortalecendo nossa identidade, cidadania, e senso histórico. Talvez o povão leve mais tempo para perceber o que ocorre, mas até isso deve ser motivo de incentivo na manutenção das frentes de denúncia e resistência. Assim somos muito mais brasileiros e brasileiras!

Nenhuma mulher a menos

Em meu mais recente livro, 200 anos de Alagoas, relato uma pequena peça teatral que costumava ser apresentada na escola pública na qual estudei na infância, em Matriz de Camaragibe; o fiz, pela análise do conteúdo de banalização da violência contra a mulher por questões ligadas à honra do macho, algo que nós, meninos e meninas da época, éramos levados a aplaudir, dando sequência ao processo de legitimação dessa prática homicida.

Conheci diversas histórias locais envolvendo supostos “crimes” femininos, passíveis de punição com morte, mesmo quando não havia certeza do fato, pois bastava algum homem ressentido levantar o falso testemunho que a vítima ia a julgamento sem possibilidade de absolvição.

Esse tribunal nunca foi desativado.

Mesmo com a liberação da vivência sexual que existe hoje, a força do sexismo ativo gera feminicídios pelo país.

Nesse contexto de confirmação da violência letal contra nós mulheres, ceifando a vida de inúmeras, registramos nosso pesar, repúdio e persistência no debate e defesa da vida!

Não à violência que mata!

Por mais espaços de fala para mulheres, em todas as representações possíveis, pontuamos nosso compromisso com a vida e a liberdade, elementos da nossa poesia existencial.

Pela vida, pelo amor…nenhuma a menos!

Alagoas está lendo seus 200 anos

A receptividade aos livros Alagoas, 200 e 200 anos de Alagoas: Análise Socioantropológica é reveladora  do interesse que o povo alagoano tem acerca de sua história, identidade, caminhos a seguir.

Em parceria com o jornalista Odilon Rios, estou desbravando uma área de pertença com o grato incentivo de inúmeros leitores. O parabéns vai para a nossa terra, que ainda é jovial e jeitosa, sem perder a graça diante das calamidades encomendadas pelos insensatos da política, economia e outras tantas expressões.

Já sabíamos que o melhor de Alagoas são os alagoanos, e essa adesão à nossa proposta de estudos e análises independentes mostra que o modelo antigo de registrar está cansando o público leitor, que por sua vez, reconhece que iniciativas como as nossas carecem de apoio, também expresso em compra das obras, leituras, críticas, elogios, enfim.

O lançamento dos nosso livros no último dia 10, no Memorial à República, teve a resposta que consolidou nossas obras neste bicentenário do nosso estado natal.

O evento deste dia 16, que foi um convite para tomar um café literário, possibilitando a proximidade com as obras e os autores, resultou exitoso. Muitas pessoas que ainda não conhecíamos estiveram presentes, trazendo suas próprias ânsias de diálogo, abrindo seus próprios leques de interesse e cultura, gerando um processo de incentivo mútuo bastante instigante.

Que essa relação bonita seja o combustível para irmos adiante, todos nós, povo que abre caminho com a força do sonho e da tentativa constante, mostrando que esse movimento nos trouxe aos 200 anos de agora. Nós200

 

O coração de Deus é vermelho

Analisando comentários sobre a possível reeleição de Lula, percebemos o reflexo de um país que pensa entender muito de política por se deixar inflamar repetindo informações de cunho classista, veiculadas pelos perseguidores do ex-presidente, que arrotam fé e abusam do nome de Deus.

O indivíduo é pobre e trabalhador, está sendo penalizado ao extremo do suportável pelas medidas do presidente Temer, mas é contra Lula que dirige suas vociferações, como se estivesse preso em uma ilha ideológica onde só existe o PT por todos os lados, e precisa ser destruído, como um jogo de game.

Os argumentos exibem os bofes de um país analfabeto, que aprende de ouvir, como um bando de papagaios barulhentos.

O fenômeno da saudade de Lula se derrama suavemente sobre aqueles que percebem as perdas, e elas são consideráveis, afetando inúmeros segmentos. Passamos a ter dois fenômenos paralelos: a saudade de políticas de cunho popular e a sanha perseguidora que não enxerga Temer porque só visa afetar Lula.

Beneficiado imediato: o grupo de políticos antiéticos que usurparam o Planalto e agem como rapineiros, com pressa de destruição identitária do brasileiro que conquistou direitos na era dos governos petistas, ainda que tenha sido de maneira populista, paternalista, etc.

Perdedores: todos nós!

Nesse caso, cada vez que algum desavisado cita Deus comete heresia, pratica blasfêmia, pois se a divindade estivesse impulsionando qualquer política no Brasil, por certo estaria garantindo os direitos dos trabalhadores, investindo alto em educação e saúde, além de defender Direitos Humanos, e correlatos.

Desse modo, concluímos afirmando que Deus não tem nada a ver com o analfabetismo político que assola nosso país. Mas, quando Ele puder participar dessa toada, vai dividir tudo por igual, pois ama incondicionalmente e promove o bem comum desde priscas eras. O coração de Deus também é vermelho!

Quando a escuridão caiu sobre a educação

Democratizar acesso ao conhecimento é a maneira mais eficaz de empoderar uma nação, principalmente quando a história dela tenha sido escrita sobre o escravagismo e outras formas de exploração dos seus empobrecidos. Conhecer é uma energia de libertação.

O embate da cultura de massa em países como o Brasil, já atrapalhava o rol de prioridades para a juventude, que enceguecida pelo direcionamento consumista abriu mão da identidade questionadora, transformadora, que outrora lhe era delegada, para pertencer a guetos em sua maioria, orientados por segmentos de mercado, percebido este desde a indumentária à tecnologia manuseada.

Porém, nada parecia pior do que o que agora se apresenta, principalmente para a juventude pobre, com base na dita reforma do Ensino Médio, que neste momento é uma realidade.

Ainda não podemos prever com segurança os efeitos negativos de um currículo que prepara para voos baixos, rasteiros, visando apenas a sobrevivência. A luta para ocupar espaços acadêmicos será mais renhida, o autodidatismo precisará compensar os saberes próprios das áreas não-obrigatórias, que apesar disso são insubstituíveis .

As políticas que o Estado brasileiro implementa na atualidade, condenam a infância, juventude, vida adulta e velhice a uma derrocada jamais presumida para este século. Mas se do caos pode vir a mudança para melhor, que nossos jovens acionem o botão da coerência para se engajarem em projetos válidos, caso contrário teremos mais perdas do que sabemos suportar.

Uma longa noite se abate sobre o sistema educacional brasileiro.

Nós, escritores alagoanos

O bicentenário de Alagoas não pode passar longe das mãos alagoanas. É assim que apresento o livro “200 anos de Alagoas: Análise Socioantropológica”, uma obra de alma popular, com sustentação científica.

O lançamento está previsto para o próximo final de semana, sexta-feira, 10 de fevereiro, no Memorial à República, a partir das 18 h. Uma forma de marcar presença servindo partes dessa alagoanidade que tanto embeleza quanto machuca a gente, que assume a identidade de gente.

Ser escritora tem sido construção de uma vida toda, quando fui descobrindo que minhas mãos e os lápis construíam mundinhos ainda infantis, com castelos próprios de uma infância interiorana, rica de imaginação em meio à escassez. Os escritos de agora, são sequências de uma cronologia que a maturidade explica, afinal, os castelos sempre desmoronam quando a vida adulta chega.

Não há forja, há fluidez. Dos poemas da adolescência até as linhas de agora, vi passar o teclado rude da primeira máquina de escrever, com seu barulho maravilhoso na sinfonia eterna do a,s,d,f.g que repeti aos montes em uma escola de datilografia solidária, que funcionava na Rua Comendador Leão, no bairro do Poço, nas vizinhanças do moinho. Eu não pagava nada, apenas tinha que aguentar as incompreensões da minha tia, que sempre pensava o pior de uma jovem de 14 anos que saía de casa pelas sete da noite levando apenas folhas brancas embaixo do braço, e uma vontade ferrenha de contrariar o determinismo que rondava seus passos.

Aprender sempre foi minha saída. Escrever, a mais escancarada delas.

O monstro que matava meus livros era a impossibilidade de publicar. O sonho e o pesadelo se constituíam na mesma negativa. Mas a escritora fluía sem comando, nem controle, espalhando escritos pelos cadernos das amigas e nas gavetas alheias…exercício.

Metade do círculo de amizades usufruía das palavras que espalhava; tornei-me leitora aos seis anos de idade, como um milagre que nem a escola entendia. Aos nove anos já havia lido toda a coleção de Machado de Assis que minha mãe comprara na porta, e pagou a prestações. José de Alencar arranquei da estante da casa dos avós maternos e uma tia me alimentou no tempo certo com os livros de Ganimédes José. Por certo li muito, o que era bom e também coisas esquisitas, fortes demais para o contexto, as misérias humanas de Adelaide Carraro, por exemplo. Me fiz assim. No meio do improvável.

Escritora independente!

Carrego a legitimidade de escrever sobre Alagoas, e hoje, compartilho o resultado com um público modesto, mas conhecedor do que falo, interessado em novos ângulos, aberto a uma proposta simples, de raiz profunda.

Ao lado de Odilon Rios, que já nasceu escritor e erudita, escrever se tornou alimento, vestimenta, energia de vida. Co-autores do livro “Bastidores da Violência (e dos violentos) em Alagoas”, agora lançaremos juntos, em paralelo, livros próprios. Seu livro-reportagem “Alagoas, 200” traz um pequeno resumo do que pensam grandes intelectuais locais, sobre a história dessa terra, que completa século novo de autonomia política.  Vale a pena participar desse evento alagoano de raiz, sendo de algum modo, parte da história que se escreve. Marque esse encontro conosco!

Livre do Brasil fascista, voa Dona Marisa. E nós?

Vivemos sob a égide do fascismo brasileiro, não há mais o que questionar.

A partir de então, deve ficar bem claro, que fascismo mata de muitas maneiras; inclusive retirando a humanidade de quem o alimenta, se entregando a frenesis coletivos com ímpetos de destruição.

Cada acontecimento novo, revela um remendo envelhecido…agora não há mais o que esconder. Nossa nação caiu em qualidade no âmago do seu próprio ser.

Não se trata mais de capitalismo versus socialismo, ou esquerda e direita. Agora é muito pior. É a proposta aberta de destruição do oponente ideológico.

O mau está sendo servido nas mesas mais luxuosas do país, entre os grupos mais assépticos. Serão pessoas de bem?

Não há o que lamentar pelo desencarne da ex-primeira dama Dona Marisa, que cumpriu lindamente sua missão de companheira do ex-presidente Lula, em uma nação continental. Seu nome figura na história sem mácula.

Lamentável mesmo é a camada de brasileiros errantes, perdida entre um grito assassino de louvor à morte e o aplauso à tortura, homofobia e outras truculências grassantes.

Hoje, lamentamos pelo Brasil fascista que desconhece a si mesmo.

Vai continuar assistindo como se não fosse contigo, ou vai endossar o cordão dos que defendem a vida?

Está na hora de tomar partido.

Dona Marisa voou rumo à espiritualidade. Mas nós ainda estamos aqui, para viver o futuro que assusta, diante da miserabilidade que toma conta da subjetividade de nossa gente.

Sejamos semeadores de vida e respeito, de maneira pública. Que se envergonhem os que louvam a morte.

Solidariedade na tragédia alagoana

abraço-casal

Um início de ano trágico sacode Alagoas. São acidentes de trânsito, dramas familiares com desfechos letais e uma série de outros traumas sociais a nos fazerem perceber o quanto a vida pede cuidados, pois a fragilidade das estruturas corporais, mentais, emocionais, relacionais, alertam que somos coletivo em convulsão.

Ignorar a dor alheia é uma configuração individualista de teor arcaico. Ser evoluído é ser elo; participar com responsabilidades atitudinais da vida desse tempo, imersos nos desafios de agora, é o compromisso de homens e mulheres. Deste modo, o simplismo dos julgamentos superficiais devem ser deixados de lado. O olhar precisa de profundidade.

Quando nada nos seja possível, sejamos ainda assim, solidários. Evitando o comentário infamante nas redes sociais, sentindo vergonha de chafurdar na lama da mesquinhez, com a altivez de quem se reconhece humano, e por essa razão, encontra o próprio reflexo no acerto e na loucura.

Que as lágrimas desanuviem as incompreensões. Amanhã haja mais vida do que tenha sido possível hoje.

 

Maceió: entre a Estátua da Liberdade e o Zeppelin

Estátua da Liberdade (réplica de Maceió)

 

Desde 1904, quando foi trazida da França para figurar no centro da praça hoje conhecida como Dois Leões, durante uma reforma daquele logradouro coordenada pelo pintor Rosalvo Ribeiro, a réplica em tamanho reduzido da Estátua da Liberdade movimentou-se entre alguns pontos de Maceió. O seu trajeto pela cidade e as circunstâncias de sua transformação em monumento são emblemáticos da relação dos maceioenses com a democracia, o liberalismo e a modernidade.

As estátuas colocadas nos locais públicos de uma cidade revelam muito do imaginário de seus habitantes. São símbolos construídos e mantidos pelo Poder Público municipal, que é escolhido em eleições periódicas; revelam, portanto, ideias e valores de expressivos segmentos do povo, na sua configuração presente e no seu relacionamento com o passado. A Estátua da Liberdade de Nova York foi inaugura em 1886. Um presente ofertado pela França aos Estados Unidos pela passagem do centenário da Declaração da Independência norte-americana. A estátua colossal foi criada e construída pelo escultor Frédéric Auguste Bartholdi, auxiliado por Gustave Eiffel no que se referiu à parte estrutural.

Esse intercâmbio político, ideológico, técnico e artístico expressou a convergência dos dois países em um liberalismo conservador, mas disposto a integrar economicamente as massas populares. A estátua foi composta a partir de símbolos iluministas, cientificistas e maçônicos.

Em 1912, num dos momentos áureos da imigração europeia para os EUA, em sua base foi gravado em bronze o poema intitulado O Novo Colosso, da norte-americanca Emma Lazarus, escrito em 1883, no qual há a seguinte passagem:

“Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,/As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade/O miserável refugo das suas costas apinhadas./Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,/Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado.”
Em 1918, seis anos após a queda da oligarquia Euclides Malta (1900-1912), a réplica alagoana, feita pela mesma Fundição d’Osne construtora do monumento de Nova York e assinada pelo mesmo Bartholdi, foi transportada para um pedestal atrás do prédio da então Recebedoria, que hoje abriga o Museu da Imagem e do Som de Alagoas (MISA).

A mudança ocorreu no contexto de uma reforma da chamada “Ponte do Desembarque”, promovida no governo de Batista Accioli (1915-18), engenheiro civil com passagem pelos EUA e filho de senhores de engenho. À época, os navios fundeavam na enseada de Jaraguá e botes embarcavam e desembarcavam os passageiros, tendo como apoio um cais de madeira e ferro que começava num ponto próximo ao prédio da Recebedoria e adentrava uns 150m no mar. Havia também uma casinha na rua Sá e Albuquerque, entre a Recebedoria e o trapiche ao lado, onde hoje está um banco, que funcionava como bilheteria e alfândega.

A estátua, portanto, foi transportada para próximo da praia (que até 1940, ano de inauguração do cais do porto, era muito mais próxima da Recebedoria, dos trapiches e da Associação Comercial) com uma intenção simbólica parecida com aquela que estava na base da construção de sua irmã norte-americana. A ideia, nos parece evidente, era a de expressar um liberalismo conservador, mas de alguma forma aberto à incorporação econômica das massas, ao progresso da indústria, à ciência, ao racionalismo e ao comércio mundial. Aquela não era uma Alagoas apenas ou principalmente dos senhores de engenho e usineiros. Era uma Alagoas liderada pelo espaço urbano. Na verdade, a burguesia comercial de Jaraguá comandava o processo econômico e ficava com a maior parte da riqueza. As fábricas têxteis já formavam um cinturão industrial mais poderoso do que o conjunto das usinas de açúcar. A referência a Nova York não era um acaso, uma imitação provinciana ou um mero pastiche.

No pedestal sobre o qual fora erguida a réplica maceioense foi esculpida a antiga bandeira de Alagoas, flâmula aprovada em 1894 e substituída em 1962, em cujo Brasão havia também símbolos liberais, cientificistas e de progresso: um trem, navios a vapor e a Cachoeira de Paulo Afonso (que remetia à eletricidade).
Mas o atraso, a herança do escravismo, o prussianismo, era outra tendência presente e dividia as instituições sociais com o liberalismo e as aspirações democráticas, num ambiente que já possuía correntes socialistas entre os operários. O setor canavieiro, que englobava engenhos e usinas, era responsável pelo empuxo para trás, devido às suas características econômicas intrínsecas.

Em maio de 1930, o Recife passou a ter um campo de pouso para receber o LZ 127 Graf Zeppelin, que visitou a cidade 65 vezes. Entre dezembro de 1936, quando a aeronave passou a seguir da capital pernambucana para a cidade do Rio de Janeiro, e maio de 1937, mês em que a explosão do LZ 129 Hindenburg acabou com a era dos dirigíveis, fotógrafos alagoanos clicaram o Zeppelin passando sobre o prédio do atual museu Théo Brandão, a Praça Sinimbu, o Farol e a Estátua da Liberdade. As fotos e um cartão postal enquadrando a Estátua da Liberdade de Jaraguá e o Zeppelin, que trazia a suástica nazista em sua cauda desde 1933, coagularam muito bem os dilemas civilizacionais alagoanos da época. A principal bifurcação era justamente a simbolizada nas imagens. Alagoas estava entre o caminho liberal norte-americano e o caminho autoritário alemão para o capitalismo.

Em 1939, foi construída a praça do Centenário da Cidade de Maceió, numa reafirmação da importância e do prestígio social do bairro do Farol, região então preferida pela burguesia. O prefeito Eustáquio Gomes de Melo, engenheiro udenista com especialização nos EUA e na Europa, convocou a Estátua da Liberdade de Jaraguá para figurar no meio da nova praça, onde ficaria no centro de um espelho d’água, uma alusão à Ilha da Liberdade, na qual se localiza a estátua norte-americana.

Naqueles tempos de ascensão do nazismo na Europa, de integralismo, de ditadura getulista e das obras de construção do cais do porto de Jaraguá (concluídas em 1940), a burguesia maceioense queria afirmar seu liberalismo conservador, sua recusa ao Estado Novo (o IAA havia retirado dos comerciantes da cidade a intermediação da produção açucareira) e a hegemonia econômica e política da capital.

Até a escola pública estadual construída em 1932, numa das gestões do menos getulista dos Interventores (Osman Loureiro), próximo ao local que seria a Praça do Centenário, tinha uma clara alusão aos ideais daquela classe social: Grupo Escolar Aureliano Cândido Tavares Bastos. O homenageado fora o maior pensador liberal brasileiro do século XIX e o mais apaixonado pelo modelo norte-americano.

A partir da inauguração do cais do porto, em 1940, a “Ponte de Desembarque” perdeu a serventia e foi abandonada. A localização da Estátua da Liberdade em Jaraguá, por sua vez, já perdera seu significado primitivo, pois não era mais o tempo do liberalismo idealista do início do século. Os capitalistas não mais temiam a falta de força de trabalho e nem sonhavam com levas de imigrantes europeus.

Em outubro de 1956, morre o general Pedro Aurélio de Goes Monteiro, o militar alagoano que fora o segundo homem mais poderoso do país durante a era Vargas. Após a Revolução de 1930, da qual foi o chefe militar, fundou em Alagoas o domínio de sua família no Executivo do estado. Um de seus irmãos foi governador (Silvestre Péricles) e dois foram interventores (Ismar de Goes Monteiro e Edgar de Goes Monteiro). Seus adversários em Alagoas eram principalmente os liberais conservadores da UDN.

Durante o governo de Muniz Falcão (1956-60) e a gestão do prefeito Abelardo Pontes Lima (1956-60), a dama da liberdade foi retirada da Praça do Centenário para dar lugar a uma estátua do general Goes Monteiro. O trabalhismo getulista, que tinha ampla base operária em Alagoas, se impunha no centro do bairro da burguesia liberal. Saiu a liberdade de comércio, entrou a guerra, a aliança entre capital e trabalho e o dever em relação à pátria. O mapa de Alagoas e os índios (representando Alagoas e a Paraíba) seriam colocados em outra parte da praça, em 1962, pelo prefeito Sandoval Caju, que era paraibano.

A então desprestigiada Estátua da Liberdade foi remetida para uma pequena praça construída na fronteira entre a Pajuçara e o Jaraguá, antes de ser devolvida, nos anos 1990, durante a gestão do socialista Ronaldo Lessa, ao seu pedestal localizado por trás da antiga Recebedoria, naquele momento já Museu da Imagem e do Som de Alagoas. O assoreamento da praia em frente, causado pela construção do cais do porto, distanciara o pedestal da linha d’água e possibilitara a construção da vila de pescadores do Jaraguá, que abrigou uma população explorada pelo mercado e abandonada pelo Poder Público.

A jornalista Janaína Ávila publicou na Gazeta de Alagoas, três ou quatro anos atrás, uma foto daquela estátua tirada de uma janela do MISA. Enquadrou a dama da liberdade em primeiro plano, com a pátina do tempo no seu corpo de bronze, o drama da vila de pescadores adiante e os navios carregados de açúcar ao fundo. A via prussiana de desenvolvimento do capitalismo venceu a via norte-americana. Mas o fato de a Estátua da Liberdade ainda permanecer lá é também prenúncio de esperança no futuro, que passa por algumas promessas do liberalismo, como a democracia e a ciência, e vai além, ao encontra da igualdade social e do socialismo.

 

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