A Melhor Política

Mestra em Educação Brasileira na Linha História e Política, Cientista Social, cidadã, amante e defensora do direito de viver.

Alagoas está lendo seus 200 anos

A receptividade aos livros Alagoas, 200 e 200 anos de Alagoas: Análise Socioantropológica é reveladora  do interesse que o povo alagoano tem acerca de sua história, identidade, caminhos a seguir.

Em parceria com o jornalista Odilon Rios, estou desbravando uma área de pertença com o grato incentivo de inúmeros leitores. O parabéns vai para a nossa terra, que ainda é jovial e jeitosa, sem perder a graça diante das calamidades encomendadas pelos insensatos da política, economia e outras tantas expressões.

Já sabíamos que o melhor de Alagoas são os alagoanos, e essa adesão à nossa proposta de estudos e análises independentes mostra que o modelo antigo de registrar está cansando o público leitor, que por sua vez, reconhece que iniciativas como as nossas carecem de apoio, também expresso em compra das obras, leituras, críticas, elogios, enfim.

O lançamento dos nosso livros no último dia 10, no Memorial à República, teve a resposta que consolidou nossas obras neste bicentenário do nosso estado natal.

O evento deste dia 16, que foi um convite para tomar um café literário, possibilitando a proximidade com as obras e os autores, resultou exitoso. Muitas pessoas que ainda não conhecíamos estiveram presentes, trazendo suas próprias ânsias de diálogo, abrindo seus próprios leques de interesse e cultura, gerando um processo de incentivo mútuo bastante instigante.

Que essa relação bonita seja o combustível para irmos adiante, todos nós, povo que abre caminho com a força do sonho e da tentativa constante, mostrando que esse movimento nos trouxe aos 200 anos de agora. Nós200

 

O coração de Deus é vermelho

Analisando comentários sobre a possível reeleição de Lula, percebemos o reflexo de um país que pensa entender muito de política por se deixar inflamar repetindo informações de cunho classista, veiculadas pelos perseguidores do ex-presidente, que arrotam fé e abusam do nome de Deus.

O indivíduo é pobre e trabalhador, está sendo penalizado ao extremo do suportável pelas medidas do presidente Temer, mas é contra Lula que dirige suas vociferações, como se estivesse preso em uma ilha ideológica onde só existe o PT por todos os lados, e precisa ser destruído, como um jogo de game.

Os argumentos exibem os bofes de um país analfabeto, que aprende de ouvir, como um bando de papagaios barulhentos.

O fenômeno da saudade de Lula se derrama suavemente sobre aqueles que percebem as perdas, e elas são consideráveis, afetando inúmeros segmentos. Passamos a ter dois fenômenos paralelos: a saudade de políticas de cunho popular e a sanha perseguidora que não enxerga Temer porque só visa afetar Lula.

Beneficiado imediato: o grupo de políticos antiéticos que usurparam o Planalto e agem como rapineiros, com pressa de destruição identitária do brasileiro que conquistou direitos na era dos governos petistas, ainda que tenha sido de maneira populista, paternalista, etc.

Perdedores: todos nós!

Nesse caso, cada vez que algum desavisado cita Deus comete heresia, pratica blasfêmia, pois se a divindade estivesse impulsionando qualquer política no Brasil, por certo estaria garantindo os direitos dos trabalhadores, investindo alto em educação e saúde, além de defender Direitos Humanos, e correlatos.

Desse modo, concluímos afirmando que Deus não tem nada a ver com o analfabetismo político que assola nosso país. Mas, quando Ele puder participar dessa toada, vai dividir tudo por igual, pois ama incondicionalmente e promove o bem comum desde priscas eras. O coração de Deus também é vermelho!

Quando a escuridão caiu sobre a educação

Democratizar acesso ao conhecimento é a maneira mais eficaz de empoderar uma nação, principalmente quando a história dela tenha sido escrita sobre o escravagismo e outras formas de exploração dos seus empobrecidos. Conhecer é uma energia de libertação.

O embate da cultura de massa em países como o Brasil, já atrapalhava o rol de prioridades para a juventude, que enceguecida pelo direcionamento consumista abriu mão da identidade questionadora, transformadora, que outrora lhe era delegada, para pertencer a guetos em sua maioria, orientados por segmentos de mercado, percebido este desde a indumentária à tecnologia manuseada.

Porém, nada parecia pior do que o que agora se apresenta, principalmente para a juventude pobre, com base na dita reforma do Ensino Médio, que neste momento é uma realidade.

Ainda não podemos prever com segurança os efeitos negativos de um currículo que prepara para voos baixos, rasteiros, visando apenas a sobrevivência. A luta para ocupar espaços acadêmicos será mais renhida, o autodidatismo precisará compensar os saberes próprios das áreas não-obrigatórias, que apesar disso são insubstituíveis .

As políticas que o Estado brasileiro implementa na atualidade, condenam a infância, juventude, vida adulta e velhice a uma derrocada jamais presumida para este século. Mas se do caos pode vir a mudança para melhor, que nossos jovens acionem o botão da coerência para se engajarem em projetos válidos, caso contrário teremos mais perdas do que sabemos suportar.

Uma longa noite se abate sobre o sistema educacional brasileiro.

Nós, escritores alagoanos

O bicentenário de Alagoas não pode passar longe das mãos alagoanas. É assim que apresento o livro “200 anos de Alagoas: Análise Socioantropológica”, uma obra de alma popular, com sustentação científica.

O lançamento está previsto para o próximo final de semana, sexta-feira, 10 de fevereiro, no Memorial à República, a partir das 18 h. Uma forma de marcar presença servindo partes dessa alagoanidade que tanto embeleza quanto machuca a gente, que assume a identidade de gente.

Ser escritora tem sido construção de uma vida toda, quando fui descobrindo que minhas mãos e os lápis construíam mundinhos ainda infantis, com castelos próprios de uma infância interiorana, rica de imaginação em meio à escassez. Os escritos de agora, são sequências de uma cronologia que a maturidade explica, afinal, os castelos sempre desmoronam quando a vida adulta chega.

Não há forja, há fluidez. Dos poemas da adolescência até as linhas de agora, vi passar o teclado rude da primeira máquina de escrever, com seu barulho maravilhoso na sinfonia eterna do a,s,d,f.g que repeti aos montes em uma escola de datilografia solidária, que funcionava na Rua Comendador Leão, no bairro do Poço, nas vizinhanças do moinho. Eu não pagava nada, apenas tinha que aguentar as incompreensões da minha tia, que sempre pensava o pior de uma jovem de 14 anos que saía de casa pelas sete da noite levando apenas folhas brancas embaixo do braço, e uma vontade ferrenha de contrariar o determinismo que rondava seus passos.

Aprender sempre foi minha saída. Escrever, a mais escancarada delas.

O monstro que matava meus livros era a impossibilidade de publicar. O sonho e o pesadelo se constituíam na mesma negativa. Mas a escritora fluía sem comando, nem controle, espalhando escritos pelos cadernos das amigas e nas gavetas alheias…exercício.

Metade do círculo de amizades usufruía das palavras que espalhava; tornei-me leitora aos seis anos de idade, como um milagre que nem a escola entendia. Aos nove anos já havia lido toda a coleção de Machado de Assis que minha mãe comprara na porta, e pagou a prestações. José de Alencar arranquei da estante da casa dos avós maternos e uma tia me alimentou no tempo certo com os livros de Ganimédes José. Por certo li muito, o que era bom e também coisas esquisitas, fortes demais para o contexto, as misérias humanas de Adelaide Carraro, por exemplo. Me fiz assim. No meio do improvável.

Escritora independente!

Carrego a legitimidade de escrever sobre Alagoas, e hoje, compartilho o resultado com um público modesto, mas conhecedor do que falo, interessado em novos ângulos, aberto a uma proposta simples, de raiz profunda.

Ao lado de Odilon Rios, que já nasceu escritor e erudita, escrever se tornou alimento, vestimenta, energia de vida. Co-autores do livro “Bastidores da Violência (e dos violentos) em Alagoas”, agora lançaremos juntos, em paralelo, livros próprios. Seu livro-reportagem “Alagoas, 200” traz um pequeno resumo do que pensam grandes intelectuais locais, sobre a história dessa terra, que completa século novo de autonomia política.  Vale a pena participar desse evento alagoano de raiz, sendo de algum modo, parte da história que se escreve. Marque esse encontro conosco!

Livre do Brasil fascista, voa Dona Marisa. E nós?

Vivemos sob a égide do fascismo brasileiro, não há mais o que questionar.

A partir de então, deve ficar bem claro, que fascismo mata de muitas maneiras; inclusive retirando a humanidade de quem o alimenta, se entregando a frenesis coletivos com ímpetos de destruição.

Cada acontecimento novo, revela um remendo envelhecido…agora não há mais o que esconder. Nossa nação caiu em qualidade no âmago do seu próprio ser.

Não se trata mais de capitalismo versus socialismo, ou esquerda e direita. Agora é muito pior. É a proposta aberta de destruição do oponente ideológico.

O mau está sendo servido nas mesas mais luxuosas do país, entre os grupos mais assépticos. Serão pessoas de bem?

Não há o que lamentar pelo desencarne da ex-primeira dama Dona Marisa, que cumpriu lindamente sua missão de companheira do ex-presidente Lula, em uma nação continental. Seu nome figura na história sem mácula.

Lamentável mesmo é a camada de brasileiros errantes, perdida entre um grito assassino de louvor à morte e o aplauso à tortura, homofobia e outras truculências grassantes.

Hoje, lamentamos pelo Brasil fascista que desconhece a si mesmo.

Vai continuar assistindo como se não fosse contigo, ou vai endossar o cordão dos que defendem a vida?

Está na hora de tomar partido.

Dona Marisa voou rumo à espiritualidade. Mas nós ainda estamos aqui, para viver o futuro que assusta, diante da miserabilidade que toma conta da subjetividade de nossa gente.

Sejamos semeadores de vida e respeito, de maneira pública. Que se envergonhem os que louvam a morte.

Solidariedade na tragédia alagoana

abraço-casal

Um início de ano trágico sacode Alagoas. São acidentes de trânsito, dramas familiares com desfechos letais e uma série de outros traumas sociais a nos fazerem perceber o quanto a vida pede cuidados, pois a fragilidade das estruturas corporais, mentais, emocionais, relacionais, alertam que somos coletivo em convulsão.

Ignorar a dor alheia é uma configuração individualista de teor arcaico. Ser evoluído é ser elo; participar com responsabilidades atitudinais da vida desse tempo, imersos nos desafios de agora, é o compromisso de homens e mulheres. Deste modo, o simplismo dos julgamentos superficiais devem ser deixados de lado. O olhar precisa de profundidade.

Quando nada nos seja possível, sejamos ainda assim, solidários. Evitando o comentário infamante nas redes sociais, sentindo vergonha de chafurdar na lama da mesquinhez, com a altivez de quem se reconhece humano, e por essa razão, encontra o próprio reflexo no acerto e na loucura.

Que as lágrimas desanuviem as incompreensões. Amanhã haja mais vida do que tenha sido possível hoje.

 

Maceió: entre a Estátua da Liberdade e o Zeppelin

Estátua da Liberdade (réplica de Maceió)

 

Desde 1904, quando foi trazida da França para figurar no centro da praça hoje conhecida como Dois Leões, durante uma reforma daquele logradouro coordenada pelo pintor Rosalvo Ribeiro, a réplica em tamanho reduzido da Estátua da Liberdade movimentou-se entre alguns pontos de Maceió. O seu trajeto pela cidade e as circunstâncias de sua transformação em monumento são emblemáticos da relação dos maceioenses com a democracia, o liberalismo e a modernidade.

As estátuas colocadas nos locais públicos de uma cidade revelam muito do imaginário de seus habitantes. São símbolos construídos e mantidos pelo Poder Público municipal, que é escolhido em eleições periódicas; revelam, portanto, ideias e valores de expressivos segmentos do povo, na sua configuração presente e no seu relacionamento com o passado. A Estátua da Liberdade de Nova York foi inaugura em 1886. Um presente ofertado pela França aos Estados Unidos pela passagem do centenário da Declaração da Independência norte-americana. A estátua colossal foi criada e construída pelo escultor Frédéric Auguste Bartholdi, auxiliado por Gustave Eiffel no que se referiu à parte estrutural.

Esse intercâmbio político, ideológico, técnico e artístico expressou a convergência dos dois países em um liberalismo conservador, mas disposto a integrar economicamente as massas populares. A estátua foi composta a partir de símbolos iluministas, cientificistas e maçônicos.

Em 1912, num dos momentos áureos da imigração europeia para os EUA, em sua base foi gravado em bronze o poema intitulado O Novo Colosso, da norte-americanca Emma Lazarus, escrito em 1883, no qual há a seguinte passagem:

“Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,/As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade/O miserável refugo das suas costas apinhadas./Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,/Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado.”
Em 1918, seis anos após a queda da oligarquia Euclides Malta (1900-1912), a réplica alagoana, feita pela mesma Fundição d’Osne construtora do monumento de Nova York e assinada pelo mesmo Bartholdi, foi transportada para um pedestal atrás do prédio da então Recebedoria, que hoje abriga o Museu da Imagem e do Som de Alagoas (MISA).

A mudança ocorreu no contexto de uma reforma da chamada “Ponte do Desembarque”, promovida no governo de Batista Accioli (1915-18), engenheiro civil com passagem pelos EUA e filho de senhores de engenho. À época, os navios fundeavam na enseada de Jaraguá e botes embarcavam e desembarcavam os passageiros, tendo como apoio um cais de madeira e ferro que começava num ponto próximo ao prédio da Recebedoria e adentrava uns 150m no mar. Havia também uma casinha na rua Sá e Albuquerque, entre a Recebedoria e o trapiche ao lado, onde hoje está um banco, que funcionava como bilheteria e alfândega.

A estátua, portanto, foi transportada para próximo da praia (que até 1940, ano de inauguração do cais do porto, era muito mais próxima da Recebedoria, dos trapiches e da Associação Comercial) com uma intenção simbólica parecida com aquela que estava na base da construção de sua irmã norte-americana. A ideia, nos parece evidente, era a de expressar um liberalismo conservador, mas de alguma forma aberto à incorporação econômica das massas, ao progresso da indústria, à ciência, ao racionalismo e ao comércio mundial. Aquela não era uma Alagoas apenas ou principalmente dos senhores de engenho e usineiros. Era uma Alagoas liderada pelo espaço urbano. Na verdade, a burguesia comercial de Jaraguá comandava o processo econômico e ficava com a maior parte da riqueza. As fábricas têxteis já formavam um cinturão industrial mais poderoso do que o conjunto das usinas de açúcar. A referência a Nova York não era um acaso, uma imitação provinciana ou um mero pastiche.

No pedestal sobre o qual fora erguida a réplica maceioense foi esculpida a antiga bandeira de Alagoas, flâmula aprovada em 1894 e substituída em 1962, em cujo Brasão havia também símbolos liberais, cientificistas e de progresso: um trem, navios a vapor e a Cachoeira de Paulo Afonso (que remetia à eletricidade).
Mas o atraso, a herança do escravismo, o prussianismo, era outra tendência presente e dividia as instituições sociais com o liberalismo e as aspirações democráticas, num ambiente que já possuía correntes socialistas entre os operários. O setor canavieiro, que englobava engenhos e usinas, era responsável pelo empuxo para trás, devido às suas características econômicas intrínsecas.

Em maio de 1930, o Recife passou a ter um campo de pouso para receber o LZ 127 Graf Zeppelin, que visitou a cidade 65 vezes. Entre dezembro de 1936, quando a aeronave passou a seguir da capital pernambucana para a cidade do Rio de Janeiro, e maio de 1937, mês em que a explosão do LZ 129 Hindenburg acabou com a era dos dirigíveis, fotógrafos alagoanos clicaram o Zeppelin passando sobre o prédio do atual museu Théo Brandão, a Praça Sinimbu, o Farol e a Estátua da Liberdade. As fotos e um cartão postal enquadrando a Estátua da Liberdade de Jaraguá e o Zeppelin, que trazia a suástica nazista em sua cauda desde 1933, coagularam muito bem os dilemas civilizacionais alagoanos da época. A principal bifurcação era justamente a simbolizada nas imagens. Alagoas estava entre o caminho liberal norte-americano e o caminho autoritário alemão para o capitalismo.

Em 1939, foi construída a praça do Centenário da Cidade de Maceió, numa reafirmação da importância e do prestígio social do bairro do Farol, região então preferida pela burguesia. O prefeito Eustáquio Gomes de Melo, engenheiro udenista com especialização nos EUA e na Europa, convocou a Estátua da Liberdade de Jaraguá para figurar no meio da nova praça, onde ficaria no centro de um espelho d’água, uma alusão à Ilha da Liberdade, na qual se localiza a estátua norte-americana.

Naqueles tempos de ascensão do nazismo na Europa, de integralismo, de ditadura getulista e das obras de construção do cais do porto de Jaraguá (concluídas em 1940), a burguesia maceioense queria afirmar seu liberalismo conservador, sua recusa ao Estado Novo (o IAA havia retirado dos comerciantes da cidade a intermediação da produção açucareira) e a hegemonia econômica e política da capital.

Até a escola pública estadual construída em 1932, numa das gestões do menos getulista dos Interventores (Osman Loureiro), próximo ao local que seria a Praça do Centenário, tinha uma clara alusão aos ideais daquela classe social: Grupo Escolar Aureliano Cândido Tavares Bastos. O homenageado fora o maior pensador liberal brasileiro do século XIX e o mais apaixonado pelo modelo norte-americano.

A partir da inauguração do cais do porto, em 1940, a “Ponte de Desembarque” perdeu a serventia e foi abandonada. A localização da Estátua da Liberdade em Jaraguá, por sua vez, já perdera seu significado primitivo, pois não era mais o tempo do liberalismo idealista do início do século. Os capitalistas não mais temiam a falta de força de trabalho e nem sonhavam com levas de imigrantes europeus.

Em outubro de 1956, morre o general Pedro Aurélio de Goes Monteiro, o militar alagoano que fora o segundo homem mais poderoso do país durante a era Vargas. Após a Revolução de 1930, da qual foi o chefe militar, fundou em Alagoas o domínio de sua família no Executivo do estado. Um de seus irmãos foi governador (Silvestre Péricles) e dois foram interventores (Ismar de Goes Monteiro e Edgar de Goes Monteiro). Seus adversários em Alagoas eram principalmente os liberais conservadores da UDN.

Durante o governo de Muniz Falcão (1956-60) e a gestão do prefeito Abelardo Pontes Lima (1956-60), a dama da liberdade foi retirada da Praça do Centenário para dar lugar a uma estátua do general Goes Monteiro. O trabalhismo getulista, que tinha ampla base operária em Alagoas, se impunha no centro do bairro da burguesia liberal. Saiu a liberdade de comércio, entrou a guerra, a aliança entre capital e trabalho e o dever em relação à pátria. O mapa de Alagoas e os índios (representando Alagoas e a Paraíba) seriam colocados em outra parte da praça, em 1962, pelo prefeito Sandoval Caju, que era paraibano.

A então desprestigiada Estátua da Liberdade foi remetida para uma pequena praça construída na fronteira entre a Pajuçara e o Jaraguá, antes de ser devolvida, nos anos 1990, durante a gestão do socialista Ronaldo Lessa, ao seu pedestal localizado por trás da antiga Recebedoria, naquele momento já Museu da Imagem e do Som de Alagoas. O assoreamento da praia em frente, causado pela construção do cais do porto, distanciara o pedestal da linha d’água e possibilitara a construção da vila de pescadores do Jaraguá, que abrigou uma população explorada pelo mercado e abandonada pelo Poder Público.

A jornalista Janaína Ávila publicou na Gazeta de Alagoas, três ou quatro anos atrás, uma foto daquela estátua tirada de uma janela do MISA. Enquadrou a dama da liberdade em primeiro plano, com a pátina do tempo no seu corpo de bronze, o drama da vila de pescadores adiante e os navios carregados de açúcar ao fundo. A via prussiana de desenvolvimento do capitalismo venceu a via norte-americana. Mas o fato de a Estátua da Liberdade ainda permanecer lá é também prenúncio de esperança no futuro, que passa por algumas promessas do liberalismo, como a democracia e a ciência, e vai além, ao encontra da igualdade social e do socialismo.

 

Desafio ao prefeito eleito de Matriz de Camaragibe

Constatando a agonia dos professores aposentados de Matriz de Camaragibe. Razão dela: salário em atraso. Aquela política de manter “um mês dentro” enquanto as contas não esperam, as necessidades sociais e fisiológicas também não. O que pode levar um gestor a manter esse território de sofrimento, sobre a casa alheia?

No Brasil de hoje qualquer discurso vai servindo para desestabilizar os “non gratos”.

Em Matriz de Camaragibe, contudo, essa política de malvadeza se restringe aos servidores aposentados.

Nós, aqui, em observação ininterrupta estamos aguardando posicionamento político maduro do prefeito eleito, Anderson Boulevard, na esperança de que consiga se libertar do espectro de mau governante, do ex-prefeito Marquinho, seu tio.

Esperamos que Anderson, um neófito de todo na política – preze pela construção de um identidade própria, aprendendo desde agora que se governa para o povo, para a sociedade, e não para um grupo fechado de adesos e festivos eleitores.

O compromisso de pagar em dia os salários dos professores aposentados pode revelar um perfil mais humano e altruísta de sua parte, coisa que seu tio e padrinho na política, definitivamente não conseguiu. No entanto, esperamos que o discípulo possa superar o mestre, e nesse caso, aprenda a gestar o bem público com mais lisura e compromisso histórico e social, fortalecendo seu próprio perfil de gestor para além do arcaísmo que sustentou as bases do prefeito que passou.

Nossa torcida para que Anderson não caia na armadilha de figurar como simples marionete no cenário local, e beneficie os verdadeiros donos dos bens que ora possui a legitimidade para gerir, o povo de Matriz de Camaragibe, ainda livre para ser contra ou a favor de qualquer prefeito, sem desobrigar este, de servir aos interesses da coletividade.

Comece bem 2017, prefeito eleito, regulamente o pagamento salarial dos aposentados da educação, pois estes são responsáveis pelo melhor que ora temos, inclusive, você. Pense nisso!

Violência que nos separa, por Juliana Alves

O título veio da minha interpretação ao texto da professora e pesquisadora Juliana Alves, de quem copiei os escritos postos na rede social facebook. Com sua permissão Juliana…

Na tarde de ontem, antes de iniciar minha aula, sou surpreendida com o grupo de alunos e alunas que falavam eufóricos, ao mesmo tempo, sem parar:

– Tia, o *José não vai mais voltar pra escola.
– É mesmo?! E como vocês sabem disso?
– A vó dele fugiu com ele. Ela ficou medo de perdê-lo também!
– Peraí, do que vocês estão falando? O que houve com o *José? Como vocês sabem disso?
Nesse momento, um silêncio ensurdecedor toma conta da sala. As crianças se entreolham e somente uma toma a inicitiva de me contar o que realmente havia acontecido.
– Sabe o que é, tia?! O outro irmão do José levou um monte de tiro… Era um que tinha 16 anos! Ele morreu… Tinha muito sangue na cabeça dele… E a avó do José foi embora pra longe. Ela tava com muito medo. Ela achava que o *José podia morrer também.
O mesmo silêncio ensurdecedor, agora, toma conta de mim. Tento ser forte para não piorar mais ainda a situação de desespero que já tomava conta de todas aquelas crianças. Sim, crianças…tão pequenas…tão cheias de vida, mas mergulhadas numa miséria de mundo onde a violência impera, onde a morte é palavra de ordem e a luta pela sobrevivência é aquele milésimo de segundo que a todo tempo insiste em bater na memória do pensamento sempre em situação de alerta.
*José não teve uma morte física como os outros irmãos. O menino pobre, negro, morador de favela, criado pelos avós, foi morto de outra forma. A sociedade lhe tirou o direito de poder viver em sua humilde casa, de conviver com seus irmãos, de estudar, de brincar e crescer com os amigos que fez desde muito pequeno… Essa mesma sociedade matou todas as esperanças daquele menino de olhos brilhantes, que queria somente sorrir com liberdade

*José é um nome fictício, usado para a identificação de uma criança de 09 anos, que na última semana esteve comigo…era meu aluno… Ele foi levado para longe..muito longe… E eu não tive tempo de me despedir e dizer o quanto ele foi especial pra mim.

Quando a mulher vira penduricalho da política

Afinados com o discurso nacional, políticos alagoanos se referem à mulher como responsável por ações sociais associadas à imagem maternal, cuidadora, como convém às suas companheiras louras ou enlourecidas.

O enlevo que tem envolvido a camada conservadora com a volta do patriarcalismo como modelo de sucesso, traz  expressões felizes aos moralistas e ignorantes contemporâneos, fincados em seus torrões de dominação, em conservação dos piores modelos relacionais.

Em linha de análise endógena, por certo, as políticas municipais fazem o Brasil revelar o insucesso humanitário do que se empreende nas políticas interioranas.

No interior do Brasil se conserva o pior tipo de uso dos bens públicos, com recheio de abusos e coerções. O herói é anti-herói; assume publicamente seu desrespeito às leis e cria outras baseadas em perseguições e arbitrariedades, com enriquecimento rápido e aceito por seus pares e eleitores, normalizando todo descaminho e criminalizando qualquer anseio coletivo.

Para garantir esse cenário estanque, a todos os políticos desse naipe interessa a conservação das tradições arcaicas e a detenção do avanço de qualquer pensamento libertário. No silêncio da prática endurecida tais indivíduos corroboram com o combate de tudo o que emancipe a mulher, o negro, o homossexual, o autônomo do pensamento…

A estabilidade que esconde a dor dos espoliados é objeto de muito interesse para o mau político brasileiro.

Nesse contexto, suas fúteis ou coniventes parceiras costumam ser apresentadas como benfeitoras e humanitárias, se tornando rosto e carimbo quando assumem as secretarias estratégicas, já que nepotismo é algo que não existe mais no país, um termo obsoleto.

A tais mulheres com sina de penduricalhos da história, nenhum suspiro ou condolência, mas toda essa frieza no olhar, pela atitude que embota o verdadeiro sentido das lutas por igualdade de direitos e representações de gênero no cenário social.

Nada me inspiram. A elas e a eles, o repúdio por sequenciarem as pobrezas materiais e simbólicas que roubam a vida e seu sentido, adoecendo nosso país com alienação e arcaísmo.

© 2012 - 2014 Repórter Alagoas. Todos os direitos reservados. E-mail: contato@reporteralagoas.com.br Jornalista responsável: Odilon Rios - MTB 840 / AL