A Melhor Política

Mestra em Educação Brasileira na Linha História e Política, Cientista Social, cidadã, amante e defensora do direito de viver.

Maceió: entre a Estátua da Liberdade e o Zeppelin

Estátua da Liberdade (réplica de Maceió)

 

Desde 1904, quando foi trazida da França para figurar no centro da praça hoje conhecida como Dois Leões, durante uma reforma daquele logradouro coordenada pelo pintor Rosalvo Ribeiro, a réplica em tamanho reduzido da Estátua da Liberdade movimentou-se entre alguns pontos de Maceió. O seu trajeto pela cidade e as circunstâncias de sua transformação em monumento são emblemáticos da relação dos maceioenses com a democracia, o liberalismo e a modernidade.

As estátuas colocadas nos locais públicos de uma cidade revelam muito do imaginário de seus habitantes. São símbolos construídos e mantidos pelo Poder Público municipal, que é escolhido em eleições periódicas; revelam, portanto, ideias e valores de expressivos segmentos do povo, na sua configuração presente e no seu relacionamento com o passado. A Estátua da Liberdade de Nova York foi inaugura em 1886. Um presente ofertado pela França aos Estados Unidos pela passagem do centenário da Declaração da Independência norte-americana. A estátua colossal foi criada e construída pelo escultor Frédéric Auguste Bartholdi, auxiliado por Gustave Eiffel no que se referiu à parte estrutural.

Esse intercâmbio político, ideológico, técnico e artístico expressou a convergência dos dois países em um liberalismo conservador, mas disposto a integrar economicamente as massas populares. A estátua foi composta a partir de símbolos iluministas, cientificistas e maçônicos.

Em 1912, num dos momentos áureos da imigração europeia para os EUA, em sua base foi gravado em bronze o poema intitulado O Novo Colosso, da norte-americanca Emma Lazarus, escrito em 1883, no qual há a seguinte passagem:

“Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,/As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade/O miserável refugo das suas costas apinhadas./Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,/Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado.”
Em 1918, seis anos após a queda da oligarquia Euclides Malta (1900-1912), a réplica alagoana, feita pela mesma Fundição d’Osne construtora do monumento de Nova York e assinada pelo mesmo Bartholdi, foi transportada para um pedestal atrás do prédio da então Recebedoria, que hoje abriga o Museu da Imagem e do Som de Alagoas (MISA).

A mudança ocorreu no contexto de uma reforma da chamada “Ponte do Desembarque”, promovida no governo de Batista Accioli (1915-18), engenheiro civil com passagem pelos EUA e filho de senhores de engenho. À época, os navios fundeavam na enseada de Jaraguá e botes embarcavam e desembarcavam os passageiros, tendo como apoio um cais de madeira e ferro que começava num ponto próximo ao prédio da Recebedoria e adentrava uns 150m no mar. Havia também uma casinha na rua Sá e Albuquerque, entre a Recebedoria e o trapiche ao lado, onde hoje está um banco, que funcionava como bilheteria e alfândega.

A estátua, portanto, foi transportada para próximo da praia (que até 1940, ano de inauguração do cais do porto, era muito mais próxima da Recebedoria, dos trapiches e da Associação Comercial) com uma intenção simbólica parecida com aquela que estava na base da construção de sua irmã norte-americana. A ideia, nos parece evidente, era a de expressar um liberalismo conservador, mas de alguma forma aberto à incorporação econômica das massas, ao progresso da indústria, à ciência, ao racionalismo e ao comércio mundial. Aquela não era uma Alagoas apenas ou principalmente dos senhores de engenho e usineiros. Era uma Alagoas liderada pelo espaço urbano. Na verdade, a burguesia comercial de Jaraguá comandava o processo econômico e ficava com a maior parte da riqueza. As fábricas têxteis já formavam um cinturão industrial mais poderoso do que o conjunto das usinas de açúcar. A referência a Nova York não era um acaso, uma imitação provinciana ou um mero pastiche.

No pedestal sobre o qual fora erguida a réplica maceioense foi esculpida a antiga bandeira de Alagoas, flâmula aprovada em 1894 e substituída em 1962, em cujo Brasão havia também símbolos liberais, cientificistas e de progresso: um trem, navios a vapor e a Cachoeira de Paulo Afonso (que remetia à eletricidade).
Mas o atraso, a herança do escravismo, o prussianismo, era outra tendência presente e dividia as instituições sociais com o liberalismo e as aspirações democráticas, num ambiente que já possuía correntes socialistas entre os operários. O setor canavieiro, que englobava engenhos e usinas, era responsável pelo empuxo para trás, devido às suas características econômicas intrínsecas.

Em maio de 1930, o Recife passou a ter um campo de pouso para receber o LZ 127 Graf Zeppelin, que visitou a cidade 65 vezes. Entre dezembro de 1936, quando a aeronave passou a seguir da capital pernambucana para a cidade do Rio de Janeiro, e maio de 1937, mês em que a explosão do LZ 129 Hindenburg acabou com a era dos dirigíveis, fotógrafos alagoanos clicaram o Zeppelin passando sobre o prédio do atual museu Théo Brandão, a Praça Sinimbu, o Farol e a Estátua da Liberdade. As fotos e um cartão postal enquadrando a Estátua da Liberdade de Jaraguá e o Zeppelin, que trazia a suástica nazista em sua cauda desde 1933, coagularam muito bem os dilemas civilizacionais alagoanos da época. A principal bifurcação era justamente a simbolizada nas imagens. Alagoas estava entre o caminho liberal norte-americano e o caminho autoritário alemão para o capitalismo.

Em 1939, foi construída a praça do Centenário da Cidade de Maceió, numa reafirmação da importância e do prestígio social do bairro do Farol, região então preferida pela burguesia. O prefeito Eustáquio Gomes de Melo, engenheiro udenista com especialização nos EUA e na Europa, convocou a Estátua da Liberdade de Jaraguá para figurar no meio da nova praça, onde ficaria no centro de um espelho d’água, uma alusão à Ilha da Liberdade, na qual se localiza a estátua norte-americana.

Naqueles tempos de ascensão do nazismo na Europa, de integralismo, de ditadura getulista e das obras de construção do cais do porto de Jaraguá (concluídas em 1940), a burguesia maceioense queria afirmar seu liberalismo conservador, sua recusa ao Estado Novo (o IAA havia retirado dos comerciantes da cidade a intermediação da produção açucareira) e a hegemonia econômica e política da capital.

Até a escola pública estadual construída em 1932, numa das gestões do menos getulista dos Interventores (Osman Loureiro), próximo ao local que seria a Praça do Centenário, tinha uma clara alusão aos ideais daquela classe social: Grupo Escolar Aureliano Cândido Tavares Bastos. O homenageado fora o maior pensador liberal brasileiro do século XIX e o mais apaixonado pelo modelo norte-americano.

A partir da inauguração do cais do porto, em 1940, a “Ponte de Desembarque” perdeu a serventia e foi abandonada. A localização da Estátua da Liberdade em Jaraguá, por sua vez, já perdera seu significado primitivo, pois não era mais o tempo do liberalismo idealista do início do século. Os capitalistas não mais temiam a falta de força de trabalho e nem sonhavam com levas de imigrantes europeus.

Em outubro de 1956, morre o general Pedro Aurélio de Goes Monteiro, o militar alagoano que fora o segundo homem mais poderoso do país durante a era Vargas. Após a Revolução de 1930, da qual foi o chefe militar, fundou em Alagoas o domínio de sua família no Executivo do estado. Um de seus irmãos foi governador (Silvestre Péricles) e dois foram interventores (Ismar de Goes Monteiro e Edgar de Goes Monteiro). Seus adversários em Alagoas eram principalmente os liberais conservadores da UDN.

Durante o governo de Muniz Falcão (1956-60) e a gestão do prefeito Abelardo Pontes Lima (1956-60), a dama da liberdade foi retirada da Praça do Centenário para dar lugar a uma estátua do general Goes Monteiro. O trabalhismo getulista, que tinha ampla base operária em Alagoas, se impunha no centro do bairro da burguesia liberal. Saiu a liberdade de comércio, entrou a guerra, a aliança entre capital e trabalho e o dever em relação à pátria. O mapa de Alagoas e os índios (representando Alagoas e a Paraíba) seriam colocados em outra parte da praça, em 1962, pelo prefeito Sandoval Caju, que era paraibano.

A então desprestigiada Estátua da Liberdade foi remetida para uma pequena praça construída na fronteira entre a Pajuçara e o Jaraguá, antes de ser devolvida, nos anos 1990, durante a gestão do socialista Ronaldo Lessa, ao seu pedestal localizado por trás da antiga Recebedoria, naquele momento já Museu da Imagem e do Som de Alagoas. O assoreamento da praia em frente, causado pela construção do cais do porto, distanciara o pedestal da linha d’água e possibilitara a construção da vila de pescadores do Jaraguá, que abrigou uma população explorada pelo mercado e abandonada pelo Poder Público.

A jornalista Janaína Ávila publicou na Gazeta de Alagoas, três ou quatro anos atrás, uma foto daquela estátua tirada de uma janela do MISA. Enquadrou a dama da liberdade em primeiro plano, com a pátina do tempo no seu corpo de bronze, o drama da vila de pescadores adiante e os navios carregados de açúcar ao fundo. A via prussiana de desenvolvimento do capitalismo venceu a via norte-americana. Mas o fato de a Estátua da Liberdade ainda permanecer lá é também prenúncio de esperança no futuro, que passa por algumas promessas do liberalismo, como a democracia e a ciência, e vai além, ao encontra da igualdade social e do socialismo.

 

Desafio ao prefeito eleito de Matriz de Camaragibe

Constatando a agonia dos professores aposentados de Matriz de Camaragibe. Razão dela: salário em atraso. Aquela política de manter “um mês dentro” enquanto as contas não esperam, as necessidades sociais e fisiológicas também não. O que pode levar um gestor a manter esse território de sofrimento, sobre a casa alheia?

No Brasil de hoje qualquer discurso vai servindo para desestabilizar os “non gratos”.

Em Matriz de Camaragibe, contudo, essa política de malvadeza se restringe aos servidores aposentados.

Nós, aqui, em observação ininterrupta estamos aguardando posicionamento político maduro do prefeito eleito, Anderson Boulevard, na esperança de que consiga se libertar do espectro de mau governante, do ex-prefeito Marquinho, seu tio.

Esperamos que Anderson, um neófito de todo na política – preze pela construção de um identidade própria, aprendendo desde agora que se governa para o povo, para a sociedade, e não para um grupo fechado de adesos e festivos eleitores.

O compromisso de pagar em dia os salários dos professores aposentados pode revelar um perfil mais humano e altruísta de sua parte, coisa que seu tio e padrinho na política, definitivamente não conseguiu. No entanto, esperamos que o discípulo possa superar o mestre, e nesse caso, aprenda a gestar o bem público com mais lisura e compromisso histórico e social, fortalecendo seu próprio perfil de gestor para além do arcaísmo que sustentou as bases do prefeito que passou.

Nossa torcida para que Anderson não caia na armadilha de figurar como simples marionete no cenário local, e beneficie os verdadeiros donos dos bens que ora possui a legitimidade para gerir, o povo de Matriz de Camaragibe, ainda livre para ser contra ou a favor de qualquer prefeito, sem desobrigar este, de servir aos interesses da coletividade.

Comece bem 2017, prefeito eleito, regulamente o pagamento salarial dos aposentados da educação, pois estes são responsáveis pelo melhor que ora temos, inclusive, você. Pense nisso!

Violência que nos separa, por Juliana Alves

O título veio da minha interpretação ao texto da professora e pesquisadora Juliana Alves, de quem copiei os escritos postos na rede social facebook. Com sua permissão Juliana…

Na tarde de ontem, antes de iniciar minha aula, sou surpreendida com o grupo de alunos e alunas que falavam eufóricos, ao mesmo tempo, sem parar:

– Tia, o *José não vai mais voltar pra escola.
– É mesmo?! E como vocês sabem disso?
– A vó dele fugiu com ele. Ela ficou medo de perdê-lo também!
– Peraí, do que vocês estão falando? O que houve com o *José? Como vocês sabem disso?
Nesse momento, um silêncio ensurdecedor toma conta da sala. As crianças se entreolham e somente uma toma a inicitiva de me contar o que realmente havia acontecido.
– Sabe o que é, tia?! O outro irmão do José levou um monte de tiro… Era um que tinha 16 anos! Ele morreu… Tinha muito sangue na cabeça dele… E a avó do José foi embora pra longe. Ela tava com muito medo. Ela achava que o *José podia morrer também.
O mesmo silêncio ensurdecedor, agora, toma conta de mim. Tento ser forte para não piorar mais ainda a situação de desespero que já tomava conta de todas aquelas crianças. Sim, crianças…tão pequenas…tão cheias de vida, mas mergulhadas numa miséria de mundo onde a violência impera, onde a morte é palavra de ordem e a luta pela sobrevivência é aquele milésimo de segundo que a todo tempo insiste em bater na memória do pensamento sempre em situação de alerta.
*José não teve uma morte física como os outros irmãos. O menino pobre, negro, morador de favela, criado pelos avós, foi morto de outra forma. A sociedade lhe tirou o direito de poder viver em sua humilde casa, de conviver com seus irmãos, de estudar, de brincar e crescer com os amigos que fez desde muito pequeno… Essa mesma sociedade matou todas as esperanças daquele menino de olhos brilhantes, que queria somente sorrir com liberdade

*José é um nome fictício, usado para a identificação de uma criança de 09 anos, que na última semana esteve comigo…era meu aluno… Ele foi levado para longe..muito longe… E eu não tive tempo de me despedir e dizer o quanto ele foi especial pra mim.

Quando a mulher vira penduricalho da política

Afinados com o discurso nacional, políticos alagoanos se referem à mulher como responsável por ações sociais associadas à imagem maternal, cuidadora, como convém às suas companheiras louras ou enlourecidas.

O enlevo que tem envolvido a camada conservadora com a volta do patriarcalismo como modelo de sucesso, traz  expressões felizes aos moralistas e ignorantes contemporâneos, fincados em seus torrões de dominação, em conservação dos piores modelos relacionais.

Em linha de análise endógena, por certo, as políticas municipais fazem o Brasil revelar o insucesso humanitário do que se empreende nas políticas interioranas.

No interior do Brasil se conserva o pior tipo de uso dos bens públicos, com recheio de abusos e coerções. O herói é anti-herói; assume publicamente seu desrespeito às leis e cria outras baseadas em perseguições e arbitrariedades, com enriquecimento rápido e aceito por seus pares e eleitores, normalizando todo descaminho e criminalizando qualquer anseio coletivo.

Para garantir esse cenário estanque, a todos os políticos desse naipe interessa a conservação das tradições arcaicas e a detenção do avanço de qualquer pensamento libertário. No silêncio da prática endurecida tais indivíduos corroboram com o combate de tudo o que emancipe a mulher, o negro, o homossexual, o autônomo do pensamento…

A estabilidade que esconde a dor dos espoliados é objeto de muito interesse para o mau político brasileiro.

Nesse contexto, suas fúteis ou coniventes parceiras costumam ser apresentadas como benfeitoras e humanitárias, se tornando rosto e carimbo quando assumem as secretarias estratégicas, já que nepotismo é algo que não existe mais no país, um termo obsoleto.

A tais mulheres com sina de penduricalhos da história, nenhum suspiro ou condolência, mas toda essa frieza no olhar, pela atitude que embota o verdadeiro sentido das lutas por igualdade de direitos e representações de gênero no cenário social.

Nada me inspiram. A elas e a eles, o repúdio por sequenciarem as pobrezas materiais e simbólicas que roubam a vida e seu sentido, adoecendo nosso país com alienação e arcaísmo.

Manifesto Imprensa Livre

A democracia, para ser legítima, requer elementos distintos de atuação na sociedade, com a devida tolerância ao contraditório. Quando isso, por alguma razão, se torna impossível, a predação que se desencadeia tolhe os parâmetros democráticos, com prejuízo aos interesses coletivos, em detrimento da força.

Tudo o que é encarrilhado pela força se torna energia de embrutecimento. O convívio social minimamente salutar, não pode prescindir do diálogo.

Esse se torna o ponto fraco do fundamentalismo, dos conceitos moralistas e separatistas, que se apresentam como detentores da verdade. O outro se apresenta como o externo a ser combatido e eliminado.

Assim nos encontramos hoje, povo arrebanhado e doutrinado, não por ideologias de esquerda, pois estas requerem, para alcançar um processo de absorção intelectual, algum preparo cognitivo, sobre base racional. Mas, sim, por ideologias de extrema direita, que agregam por moralismos religiosos e sede de conservadorismo, algo fácil de obter.

A violência física logo surge, escolhendo público de classe, gênero, orientação sexual distinta e também campo de atuação política, entenda-se por isso, militância.

Perseguição oscilante entre o perfil velado e escancarado. Marginalização de quem pensa sob a própria responsabilidade, com autonomia de escolha. É possível ver democracia nesse cenário?

Ela está sendo intimidada, intimada também.

A imprensa está sendo obrigada ao servilismo contente enquanto a censura volta ao cenário brasileiro, pronta para segregar os profissionais que prezam pelo desempenho do papel social que lhes compete, e nesse caso, é informar a sociedade, gerar notícia.

Algo está sendo implantado nessa seara, e com certeza não é o chip temido por facções evangélicas. Mas uma mentalidade alienante, que em nome de assessorias vai transformando jornalistas em bobos das cortes; com pseudos-guizos despendurados em textos adocicados, podendo ao mesmo tempo se transformar em algozes pedidores de cabeças alheias, tal como fez Salomé com João Batista, para calar aquele que se entende como difamante.

Poderemos ignorar esse cenário com ritmos frenéticos de carnaval, cantando a liberdade e deixando raiar a dor ? Com quantos tapinhas nas costas receberemos a paga pelos lombos postos nos troncos da marginalização e estrangulamento social?

Em nome da democracia, assuma sua cota de responsabilidade no cenário do mundo e desperte, enquanto ainda há tempo.

O que precisamos garantir, por ora? Uma imprensa livre!

Eis meu manifesto-compromisso, como cidadã de uma terra na qual a democracia sangra, ao som dos tins-tins das taças cheias.

 

Bastidores da Violência (e dos violentos) em Alagoas: 6 anos

Hoje uma de nossas obras faz aniversário de lançamento. A mais imperfeita delas, e também aquela que concentra o maior grau de verdade: Bastidores da Violência (e dos violentos) em Alagoas, mais que um livro, um grito, e por isso mesmo portador de imperfeições; mas de tão humano, é sem dúvida o que levanta verdades como um jato de indignação.

Louvamos a todo o universo que conspirou pela materialidade desse gancho de salvação da identidade, da subjetividade, em meio ao lodo institucional, relacional e cultural que nos envolvia, no contexto pós-assassinato de um filho. Alagoas é terra cruel.

Na madrugada de hoje eu sonhei com ele, o menino mártir, personagem do livro na condição de vítima. Seu rosto era infantil, e a alegria de revê-lo continua acomodando luzes em meu coração.

Seis anos após seu martírio; quatro anos após o nascimento do livro Bastidores, sei que devemos seguir escrevendo e descascando a dor e a beleza de sermos alagoanos. Em 2017 nascerão mais dois livros escritos por nós, eu e Odilon Rios materializaremos a meta de fazer justiça a Alexystaine pelas vias da história, já que sabemos ser impossível contar com a justiça dos homens, como é conhecido o aparato entre a investigação e o julgamento de crimes.

Odilon Rios trará “Alagoas 200” e pelas minhas mãos nascerá “200 anos de martírio”. Sem dúvida, uma sequência profícua do livro que hoje aniversaria.

Alagoas amadurece a partir das lutas destemidas. Vida longa aos lutadores! Do sangue derramado ao futuro de paz, com gratidão desmedida aos que unem sonhos e acrescentam esperanças a essa história.

Contexto brasileiro: salve a subjetividade

Os elementos trazidos pela atual conjuntura brasileira são deploráveis, do ponto de vista da qualidade política, levando a escrita sobre a contemporaneidade, ao juízo de responsabilidade, em não disseminar apenas a tristeza alcançada pelos anos todos de negligência social, dos quais cada um de nós fez parte.

Precisamos compreender a dinâmica histórica que atua como um cabo de aço, aquela brincadeira que nos empolga a puxar a corda para o lado que nos convém. Alguns o fazem por escolha, outros por indução, convencimento, cooptação… o certo, é que vence o lado mais forte.

Mesmo essa vitória, contudo, é temporária, como todas as vitórias. E quando se trata de história política, ainda não existiu vitória definitiva. Pois a energia está sempre em curso – mesmo quando o curso é desviado.

Assim sendo, e desse modo compreendendo, não podemos nos permitir ser vencidos pelo rolo compressor de agora. Nenhuma máquina de morte, venceu a todos, e enquanto houver resistência, há possibilidade de renovação, e renovando, poderemos mudar.

Tudo se move encadeado, somos isso, coletividade.

Assuma você também sua parte na luta pela manutenção da esperança e não permita que suas utopias rolem ladeira abaixo. Se há um precipício nos chamando, os cumes não silenciaram. Ouça o futuro falando, olhe na direção do que vale a poesia.

Eis a política da sobrevivência em patamares racionais. Quando não conseguir o que gostaria, salve a subjetividade e garanta o recomeço outro dia.

2017 votos de alegrias para a periferia de Maceió/PSDB

O ano fatídico da pós-modernidade se despede, para nós brasileiros em efervescentes resultados de um analfabetismo político prolongado. Podemos dizer que valeu?

Talvez não tenha valido o esforço de convencimento de nós mesmos, sempre um desperdício diante do comodismo instalado em quem ainda espera salvadores para a pátria.

Talvez tenha valido a lágrima, no aprendizado de que política não é para ser terceirizada, precisa ser vivida, assumida, exercitada. A essência recuperada, não importa o contexto.

Fato: não há máscara que não venha cair. Os olhares é que permanecem enceguecidos pelas tantas ilusões que os canais oferecem.

2017 será o ano em que Maceió oficializa a assunção de um casamento entre a periferia e a elite sangue puro do PSDB local.

Não conseguindo entrar no arroubo romântico de alguns intelectuais, e mantendo as barbas que não possuo no molho da observação sobre a base hipotética erguida, que venha Lobão e o PSDB para o cenário da política maceioense, embriagando os entendidos de política sem ter lido livro nenhum na área, afirmando o poder da direita na construção de novos instrumentos de acesso ao usar aquilo mesmo que nasce do povo, para ludibriar esse povo.

Não sei se a felicidade virá até nós, mas certamente festejaremos as novidades aparentes e seja lá o que os homens e mulheres quiseram, porque Deus não entra nessas jogadas, sei disso. Mantenho meu ceticismo analítico.

O que me disse o desatino da liberal boca suja

Desde o fato acontecido, instalou-se o incômodo. Mesmo quando dormi de cansaço, ao acordar relembrei com asco. Uma professora que se diz distinta, me ofereceu a tela do seu celular para provavelmente apreciar o discurso da mulher raivosa que esculhambava aquele político carioca do qual hoje ninguém mais no Brasil gosta: Garotinho. Despejando palavras de baixo calão com expressão de desatino, aquela brasileira verde-amarela passou a dizer impropérios com Cabral, em outra enxurrada de descompensações verbais. O aparelho quase pulou da minha mão quando a dita cuja ameaçou Lula, disse mais uns palavrões e prometeu que sua prisão seria causa de comemoração nacional aos berros, em um anti-orgasmo irrefreado, com cara de louca.

Gentil, devolvi o celular para a professora que me olhava, como esperando a minha reação. Apenas perguntei: quem é essa? Respondeu que “qualquer uma”, pois hoje qualquer pessoa faz um vídeo e fala de política, mas ela achava que aquela falava muito bem! Gostava do que ela dizia.

Perguntei baixinho para o meu anjo de guarda: piada ou provação? Ele ficou em silêncio. O sensor interno disparou e decidi deixar aquele estrume por ali mesmo, sem nenhum tipo de debate. Importante é pensar. Entender o que está levando o povo brasileiro a esse desatino psicológico, de falar de política como se fala da amante do marido ou vice-versa.

Para mim, falar de política é palpitante, mas no campo da racionalidade, onde se considera o contraditório e no contexto complexo, se debate esperanças e probabilidades. Política é ciência; precisa ser estudada, avaliada, analisada. Política é força de transformação histórica, social, cultural, precisa ser praticada, vivenciada. Não poderemos resumir política aos interesses de um golpe classista, e enterrar a poesia que a compõe, sem pagar caro por isso.

A paixão por desqualificar, cumprindo um estatuto ideológico perverso, está permitindo um despejo de ignorância tóxica nas redes sociais.

Quem esculhamba mais, fala melhor? Quem vocifera mais alto, representa melhor? O que há contigo Brasil?

Desmonta logo esse picadeiro que protagonizar esse espetáculo grosseiro não está fazendo bem para as cabeças das pessoas, não. Tem gente se acreditando profeta do apocalipse, em nome de um deus sem virtude, que segrega e abençoa guetos homofóbicos, racistas, machistas, etc.

Política é fascinante, sim! Mas os elementos da mentalidade brasileira foram dispersos nos campos da representação colonial, latifundiária, empresarial, e essa força está sendo conduzida pelas mãos erradas, induzindo milhares ao esquecimento da beleza que é o exercício da cidadania.

Muitos brasileiros estão brigando pelas crenças pessoais sem considerar a coletividade. Alguns estão espumando ao gravar vídeos infames, reforçando a ignorância sobre organizações sociais, funções dos poderes, legalidade e arbitrariedade, entre outros itens de importância a saber. Transformando as redes sociais em canais de esgotos verbais, ao gosto de quem se deixar levar por isso.

Neste infeliz instante, urge que paremos para sinalizar os pontos que são realmente importantes nessa estrada, entre eles os nossos ideais de sociedade para todos, com democracia e cidadania. Assim política se transforma em poesia, e nosso amor transborda em mais vida.

Valorizemos as palavras boas.

 

Fidel e a ilha de sonhos no mar do capitalismo

A morte de Fidel Castro fechará definitivamente as portas de um século de transformação – o século XX?

Amado e odiado, o certo mesmo é que Fidel tem consistência história global, e seus feitos marcaram a  jornada polpitica e social da humanidade, mostrando que nem todas as respostas poderão ser dadas pelo capitalismo.

Vem de Cuba o exemplo de que priorizar a educação de um povo, além de possível, é a alavanca que alça esse povo a viver com qualidade, para além do consumo.

Não faço a condenação nem a apologia, mas expresso o respeito pela história política de Fidel Castro.

Sei também, que muitos daqueles que hoje vomitam ódio contra Cuba, estão passando por esse tempo fluido como um pacote flácido, e serão esborrachados nos trilhos da história, espalhando cinza no ar, pois a carência de conteúdo nem mesmo o status quo resolve.

Ao exemplo de força, coragem, estratégia e persistência, salve Fidel! Uma ilha de sonhos no mar do capitalismo.

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