26 de janeiro de 2017 • 1:35 pm

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Maceió: entre a Estátua da Liberdade e o Zeppelin

  Desde 1904, quando foi trazida da França para figurar no centro da praça hoje conhecida como Dois Leões, durante uma reforma daquele logradouro coordenada pelo pintor Rosalvo Ribeiro, a réplica em tamanho reduzido da Estátua da Liberdade movimentou-se entre alguns pontos de Maceió. O seu trajeto pela cidade e as circunstâncias de sua transformação […]

Estátua da Liberdade (réplica de Maceió)

 

Desde 1904, quando foi trazida da França para figurar no centro da praça hoje conhecida como Dois Leões, durante uma reforma daquele logradouro coordenada pelo pintor Rosalvo Ribeiro, a réplica em tamanho reduzido da Estátua da Liberdade movimentou-se entre alguns pontos de Maceió. O seu trajeto pela cidade e as circunstâncias de sua transformação em monumento são emblemáticos da relação dos maceioenses com a democracia, o liberalismo e a modernidade.

As estátuas colocadas nos locais públicos de uma cidade revelam muito do imaginário de seus habitantes. São símbolos construídos e mantidos pelo Poder Público municipal, que é escolhido em eleições periódicas; revelam, portanto, ideias e valores de expressivos segmentos do povo, na sua configuração presente e no seu relacionamento com o passado. A Estátua da Liberdade de Nova York foi inaugura em 1886. Um presente ofertado pela França aos Estados Unidos pela passagem do centenário da Declaração da Independência norte-americana. A estátua colossal foi criada e construída pelo escultor Frédéric Auguste Bartholdi, auxiliado por Gustave Eiffel no que se referiu à parte estrutural.

Esse intercâmbio político, ideológico, técnico e artístico expressou a convergência dos dois países em um liberalismo conservador, mas disposto a integrar economicamente as massas populares. A estátua foi composta a partir de símbolos iluministas, cientificistas e maçônicos.

Em 1912, num dos momentos áureos da imigração europeia para os EUA, em sua base foi gravado em bronze o poema intitulado O Novo Colosso, da norte-americanca Emma Lazarus, escrito em 1883, no qual há a seguinte passagem:

“Dai-me os seus fatigados, os seus pobres,/As suas massas encurraladas ansiosas por respirar liberdade/O miserável refugo das suas costas apinhadas./Mandai-me os sem abrigo, os arremessados pelas tempestades,/Pois eu ergo o meu farol junto ao portal dourado.”
Em 1918, seis anos após a queda da oligarquia Euclides Malta (1900-1912), a réplica alagoana, feita pela mesma Fundição d’Osne construtora do monumento de Nova York e assinada pelo mesmo Bartholdi, foi transportada para um pedestal atrás do prédio da então Recebedoria, que hoje abriga o Museu da Imagem e do Som de Alagoas (MISA).

A mudança ocorreu no contexto de uma reforma da chamada “Ponte do Desembarque”, promovida no governo de Batista Accioli (1915-18), engenheiro civil com passagem pelos EUA e filho de senhores de engenho. À época, os navios fundeavam na enseada de Jaraguá e botes embarcavam e desembarcavam os passageiros, tendo como apoio um cais de madeira e ferro que começava num ponto próximo ao prédio da Recebedoria e adentrava uns 150m no mar. Havia também uma casinha na rua Sá e Albuquerque, entre a Recebedoria e o trapiche ao lado, onde hoje está um banco, que funcionava como bilheteria e alfândega.

A estátua, portanto, foi transportada para próximo da praia (que até 1940, ano de inauguração do cais do porto, era muito mais próxima da Recebedoria, dos trapiches e da Associação Comercial) com uma intenção simbólica parecida com aquela que estava na base da construção de sua irmã norte-americana. A ideia, nos parece evidente, era a de expressar um liberalismo conservador, mas de alguma forma aberto à incorporação econômica das massas, ao progresso da indústria, à ciência, ao racionalismo e ao comércio mundial. Aquela não era uma Alagoas apenas ou principalmente dos senhores de engenho e usineiros. Era uma Alagoas liderada pelo espaço urbano. Na verdade, a burguesia comercial de Jaraguá comandava o processo econômico e ficava com a maior parte da riqueza. As fábricas têxteis já formavam um cinturão industrial mais poderoso do que o conjunto das usinas de açúcar. A referência a Nova York não era um acaso, uma imitação provinciana ou um mero pastiche.

No pedestal sobre o qual fora erguida a réplica maceioense foi esculpida a antiga bandeira de Alagoas, flâmula aprovada em 1894 e substituída em 1962, em cujo Brasão havia também símbolos liberais, cientificistas e de progresso: um trem, navios a vapor e a Cachoeira de Paulo Afonso (que remetia à eletricidade).
Mas o atraso, a herança do escravismo, o prussianismo, era outra tendência presente e dividia as instituições sociais com o liberalismo e as aspirações democráticas, num ambiente que já possuía correntes socialistas entre os operários. O setor canavieiro, que englobava engenhos e usinas, era responsável pelo empuxo para trás, devido às suas características econômicas intrínsecas.

Em maio de 1930, o Recife passou a ter um campo de pouso para receber o LZ 127 Graf Zeppelin, que visitou a cidade 65 vezes. Entre dezembro de 1936, quando a aeronave passou a seguir da capital pernambucana para a cidade do Rio de Janeiro, e maio de 1937, mês em que a explosão do LZ 129 Hindenburg acabou com a era dos dirigíveis, fotógrafos alagoanos clicaram o Zeppelin passando sobre o prédio do atual museu Théo Brandão, a Praça Sinimbu, o Farol e a Estátua da Liberdade. As fotos e um cartão postal enquadrando a Estátua da Liberdade de Jaraguá e o Zeppelin, que trazia a suástica nazista em sua cauda desde 1933, coagularam muito bem os dilemas civilizacionais alagoanos da época. A principal bifurcação era justamente a simbolizada nas imagens. Alagoas estava entre o caminho liberal norte-americano e o caminho autoritário alemão para o capitalismo.

Em 1939, foi construída a praça do Centenário da Cidade de Maceió, numa reafirmação da importância e do prestígio social do bairro do Farol, região então preferida pela burguesia. O prefeito Eustáquio Gomes de Melo, engenheiro udenista com especialização nos EUA e na Europa, convocou a Estátua da Liberdade de Jaraguá para figurar no meio da nova praça, onde ficaria no centro de um espelho d’água, uma alusão à Ilha da Liberdade, na qual se localiza a estátua norte-americana.

Naqueles tempos de ascensão do nazismo na Europa, de integralismo, de ditadura getulista e das obras de construção do cais do porto de Jaraguá (concluídas em 1940), a burguesia maceioense queria afirmar seu liberalismo conservador, sua recusa ao Estado Novo (o IAA havia retirado dos comerciantes da cidade a intermediação da produção açucareira) e a hegemonia econômica e política da capital.

Até a escola pública estadual construída em 1932, numa das gestões do menos getulista dos Interventores (Osman Loureiro), próximo ao local que seria a Praça do Centenário, tinha uma clara alusão aos ideais daquela classe social: Grupo Escolar Aureliano Cândido Tavares Bastos. O homenageado fora o maior pensador liberal brasileiro do século XIX e o mais apaixonado pelo modelo norte-americano.

A partir da inauguração do cais do porto, em 1940, a “Ponte de Desembarque” perdeu a serventia e foi abandonada. A localização da Estátua da Liberdade em Jaraguá, por sua vez, já perdera seu significado primitivo, pois não era mais o tempo do liberalismo idealista do início do século. Os capitalistas não mais temiam a falta de força de trabalho e nem sonhavam com levas de imigrantes europeus.

Em outubro de 1956, morre o general Pedro Aurélio de Goes Monteiro, o militar alagoano que fora o segundo homem mais poderoso do país durante a era Vargas. Após a Revolução de 1930, da qual foi o chefe militar, fundou em Alagoas o domínio de sua família no Executivo do estado. Um de seus irmãos foi governador (Silvestre Péricles) e dois foram interventores (Ismar de Goes Monteiro e Edgar de Goes Monteiro). Seus adversários em Alagoas eram principalmente os liberais conservadores da UDN.

Durante o governo de Muniz Falcão (1956-60) e a gestão do prefeito Abelardo Pontes Lima (1956-60), a dama da liberdade foi retirada da Praça do Centenário para dar lugar a uma estátua do general Goes Monteiro. O trabalhismo getulista, que tinha ampla base operária em Alagoas, se impunha no centro do bairro da burguesia liberal. Saiu a liberdade de comércio, entrou a guerra, a aliança entre capital e trabalho e o dever em relação à pátria. O mapa de Alagoas e os índios (representando Alagoas e a Paraíba) seriam colocados em outra parte da praça, em 1962, pelo prefeito Sandoval Caju, que era paraibano.

A então desprestigiada Estátua da Liberdade foi remetida para uma pequena praça construída na fronteira entre a Pajuçara e o Jaraguá, antes de ser devolvida, nos anos 1990, durante a gestão do socialista Ronaldo Lessa, ao seu pedestal localizado por trás da antiga Recebedoria, naquele momento já Museu da Imagem e do Som de Alagoas. O assoreamento da praia em frente, causado pela construção do cais do porto, distanciara o pedestal da linha d’água e possibilitara a construção da vila de pescadores do Jaraguá, que abrigou uma população explorada pelo mercado e abandonada pelo Poder Público.

A jornalista Janaína Ávila publicou na Gazeta de Alagoas, três ou quatro anos atrás, uma foto daquela estátua tirada de uma janela do MISA. Enquadrou a dama da liberdade em primeiro plano, com a pátina do tempo no seu corpo de bronze, o drama da vila de pescadores adiante e os navios carregados de açúcar ao fundo. A via prussiana de desenvolvimento do capitalismo venceu a via norte-americana. Mas o fato de a Estátua da Liberdade ainda permanecer lá é também prenúncio de esperança no futuro, que passa por algumas promessas do liberalismo, como a democracia e a ciência, e vai além, ao encontra da igualdade social e do socialismo.

 

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